5.8.16

O skate olímpico

Nos últimos dias, o cenário mundial de skate foi agitado pela notícia da inclusão do carrinho como modalidade olímpica de competição a partir das Olimpíadas de Tóquio, em 2020. Muitas opiniões a favor e contrárias estão sendo escritas e divulgadas por aí - e muitas, muitas bobagens também -, algo natural diante da imensa variedade de skatistas que existem por aí. Como o fato de andar de skate traz emoções diferentes pra cada um de nós, é justo também que cada um tenha os seus próprios sentimentos a essa novidade tão recente.

Essa história de "skate nas Olimpíadas" já é bem antiga, tendo surgido pouco depois do surgimento dos XGames há duas décadas, mas tomou mais força a partir do início desse século. Lembro que, em 2000 ou 2001, fui locutor de um evento televisivo chamado "ZGames", promovido pela principal emissora de tevê do país sob a batuta da ESPN. A coisa toda foi produzida e realizada pra provar aos executivos estrangeiros que haviam condições técnicas tanto de produção quanto de transmissão de um evento daquele porte, uma espécie de teste pra eles verem se daria pra se realizar uma edição latina dos X - fato que se confirmou a partir de 2002. Já naquela época, um dos tais executivos presentes foi bem claro: ele dizia pra quem quisesse ouvir que era "uma questão de tempo" até que o skate e outros esportes de prancha fossem incluídos nos jogos olímpicos. Pouco tempo depois, o snowboard começou a fazer parte da disputa dos jogos de inverno, confirmando em parte as previsões dele. Demorou algum tempo até que o prognóstico dele se confirmasse, o que acabou acontecendo nos últimos dias. 

Tão importante quanto ter uma opinião formada ou em formação é entender a história que levou o skate a atingir o recente status olímpico.. Obviamente, isso não foi algo que surgiu da noite pro dia; trata-se de um processo longo e bastante desgastante, como você verá adiante. Não pretendo mudar a opinião de ninguém em relação ao "skate olímpico", muito pelo contrário, apenas informar que existem muito mais coisas em jogo do que uma simples competição esportiva.

Neal Hendrix, fastplant to fakie em Woodward. Foto: Bryce Kanights.

O skatista veterano Neal Hendrix participou do processo que levou o skate à condição de modalidade olímpica. Como membro da ISF (International Skateboarding Federation), ele esteve presente e foi um dos protagonistas de toda a história. Ontem ele concedeu uma entrevista ao blog The Good Problem, um dos meus favoritos, cuja versão original (em inglês) pode ser acessado aqui na íntegra.

Como se trata de um artigo muito grande, o chamado "textão", destaco alguns dos pontos que achei mais relevantes abaixo. Leia com muita atenção, pois a coisa toda tem um enredo parecido com os filmes de suspense. Se o final é feliz ou não, só o tempo pode dizer.

Sobre o processo burocrático:
- "Existem algumas coisas bem diferentes que aconteceram até chegar à decisão de hoje (no caso, de anteontem). Hoje foi na verdade a votação da assembleia geral, alqo que sempre acontece nos Jogos Olímpicos. Tiveram alguns prazos anteriores a algumas votações e reuniões que foram realmente importantes e influente, no entanto, não fizeram parte da decisão final. 
Em junho desse ano, a diretoria executiva do COI  - cerca de uma dúzia de executivos de todo o mundo que se reúnem a cada trimestre - levou temas para a assembleia geral e votou pelo apoio ou não. Então, houve uma votação realmente importante em junho sobre se eles iriam recomendar que a assembleia geral votasse por esses novos esportes, ou apenas um, ou dois ou todos eles. Houve alguns processos que culminaram até a apresentação diante da diretoria executiva do COI.
Quando a diretoria executiva do COI votou pelo apoio à proposta, foi quando todos sabiam que era um fato consumado, porque normalmente essa diretoria se apresenta na assembleia geral, que já sabe que a diretoria executiva já pesquisou e trabalhou por alguns anos até chegar à proposta em si.
Pra nós que estávamos envolvidos no processo e nos bastidores, a decisão de hoje foi uma mera formalidade".

Sobre a disputa judicial pelo skate (um grupo chamado WSF, ou World Skateboarding Federation, entrou com um processo no estado da California contra a ISF e o COI) e a "sopa de letrinhas" das organizações esportivas mundiais:
- "Tim McFerran (presidente da WSF) trabalhou pros irmãos Maloof e organizou o Maloof Money Cup por alguns anos. Quando os Maloofs resolveram sair fora do skate, McFerran criou a sua própria organização, usando muitos dos recursos que eles haviam criado juntos, e começou a fazer a Kimberly Diamond Cup na África do Sul. Ele também fez alguns eventos e tours menores que conduziam até a Kimberly Diamond Cup e fundou uma entidade chamada WSF há algum tempo.
Nos últimos anos, tinham três organizações diferentes que estavam lutando pra serem o órgão representativo do skate. Eram a ISF, a WSF e a FIRS (Federação Internacional de Esportes de Patinação, em francês). A ISF é basicamente a indústria do skate que nós conhecemos, existem comitês que se reúnem regularmente e existe um comitê de atletas de todo o mundo. Tem a indústria, os Jim Thiebauds (dono da Real e Deluxe) e os Steve Van Dorens (da Vans) e o comitê de eventos que se reuniu um monte de vezers. Tem o Skatepark of Tampa, a Street League, a Vans Park Series e a Boardr, meio que o mundo do skate como nós o conhecemos.
Vou te falar um pouco do histórico da FIRS: é o órgão regulador de esportes de patinação. Eles existem há 50 ou 60 anos, nunca se envolveram muito com o skater mas sempre foram reconhecidos pelo COI, pela SportAccord (grupo de federações internacionais de esportes, sejam olímpicos ou não) e pelos órgãos governamentais que regulam todas as federações esportivas. Ser parte da SportAccord e de todo esse cenário é muito, muito importante porque eles não querem que nenhuma nova federação entre em cena e reinvidique algo que já foi reinvidicado por outra organização participante. Isso culmina em ser muito importante comno essa estrutura de comissão vai funcionar. (...)
Vale a pena mencionar que existe um grupo responsável pelos eventos da ISF chamado International Events Groups, do qual todos os maiores eventos de skate do mundo fazem parte e do qual participam todos os maiores grupos que estão organizando eventos de skate. Nós oferecemos ao McFerran um posto no comitê pro evento da África do Sul, pois nós sentimos que o evento estava merecendo um lugar no comitê e poderia desempenhar um papel importante na estrutura da ISF. Nós achamos, e eu pessoalmente acjo, que ele fez um bom evento na África do Sul, era bom pra comunidade local e aos pros que visitavam o país. Mas um único bom evento não o transforma numa federação." 

Sobre a ameaça do skate estar em mãos de não skatistas:
- "A ideia por trás de uma comissão era de que nós estávamos lutando pela ISF e pelo skate serem autogerenciáveis e de sermos o único órgão reconhecido de skate, ponto. Isso era pelo que nós estávamos lutando, por anos e anos e anos. Nós dizíamos, "isso é o skate", mas nós continuávamos a ser impedidos por essas barreiras políticas onde a FIRS estava tão envolvida com a SportAccord e com os antigos órgãos esportivos mundiais que não houve jeito de nos livrarmos deles.
O COI nos dizia, "ei, vocês têm que trabalhar com esses caras". E nós dizíamos, "aquilo não é o skate, isso aqui sim é que é o skate. No fim das contas, não houve jeito de nosso grupo ser reconhecido. Muito embora nós tivéssemos seguido à risca todas as determinações, os grupos responsáveis por nosso reconhecimento (o COI, a SportAccord e os grupos da Europa) jamais iriam nos reconhecer porque já havia um membro da organização que pleiteava o nosso esporte. Eles diziam, "a única coisa que podemos fazer é estabelecer uma comissão" e diziam que "nós estamos desejosos de dar à ISF o controle dos Jogos Olímpicos, mas vocês terão de fazer parceria com esse grupo.
A gente tinha a opção de sair fora. Estivemos muito perto disso, mas naquela época nós percebemos que, se o skate saísse fora, então nós estaríamos entregando de bandeja os Jogos Olímpicos e tudo aquilo que o skate representa pra milhões de pessoas pra um grupo que nunca andou de skate ou organizou eventos. Em termos dos esportes que eles representam, são a patinação artística, as corridas de inline e a patinação downhill, além de outras que eu desconheço. Eles estão lutando há 50 anos pra terem um esporte nos Jogos Olímpicos, é ao redor disso que o mundo deles gira. Eles fazem campeonatos mundiais, continentais e nacionais, mas o objetivo deles sempre foi os Jogos Olímpicos. Nos anos 90, quando o skate começou a crescer bastante e estava na TV, eles começaram a pleitear pelo fato do skate ter rodas e rolar. Eles viram no skate o seu ticket de entrada nos Jogos Olímpicos e eles sabem que não trabalharam nada por isso.
Houve um período na primavera de 2015 que o COI chamou os três grupos (ISF, FIRS e WSF) pra comparecerem a Lausanne, na Suíça, e apresentarem as suas propostas sobre quem deveria regulamentar o skate. Gary Rehm (presidente da ISF) e Tony Hawk foram lá em março de 2015 e fizeram uma apresentação sobre o skate. A FIRS fez a sua apresentação e a WSF também. E isso já estava acontecendo há anos, os três grupos. Finalmente, na primavera desse ano, houve vários debates de como a comissão seria formada, diferentes debates sobre esse arranjo. No final de maio, nós voltamos a Lausanne (eu, Josh Friedberg e o Gary) e propusemos uma comissão pra Tóquio 2020 que seria uma parceria entre a FIRS e a ISF, onde a FIRS seria o órgão reconhecido mas que a ISF e a indústria do skate como nós conhecemos teriam o controle dos votos e a responsabilidade de organizar os Jogos Olímpicos. E assim também seria a formatação, a classificação e o design dos obstáculos e do park, os juízes... enfim, quem organizaria os eventos de skate de fato.

Sobre a ISF não organizar eventos:
- "A ISF nunca quis organizar campeonatos. Nós estamos perfeitamente felizes e não quisemos interferir no que acontecia no setor privado. Nós achamos que a Street League está fazendo coisas boas pro street, já estamos trabalhando junto deles nos últimos anos. Nós ajudamos a Street League a ser mais inclusiva; agora existem dois campeonatos abertos no qual os caras podem se classificar pra SL. Nós trabalhamos com eles nos últimos anos pra incluir as mulheres, o que foi um passo imenso já que era algo que a Street League nunca havia feito antes.
É a mesma coisa com a Vans Park Series, a ISF trabalhou lado a lado com a Vans quando eles estavam conceituando o circuito. Nós trabalhamos com eles no formato, em quão aberto ele seria e como envolver todas as regiões continentais que foram convidadas, e a selecionar os pros que não tinham de passar pelas rodadas eliminatórias. Nós trabalhamos com a Vans pra reforçar o quanto era importante ter as meninas envolvidas nesse primeira temporada da Park Series, são dois eventos femininos nesse primeiro ano. Mas a ISF nunca quis fazer os seus próprios eventos, nós quisemos apoiar aquilo que o mundo do skate já estava fazendo."

Sobre o doping:
- "Vou ler a declaração oficial da ISF: 'Conforme afirmado pela WADA (a Agência Mundial Anti-Doping), a ISF está em conformidade com as regras da Agêncua,. A ISF também está de acordo com o COI no que diz respeito a algumas pessoas terem afirmado que essas obrigações são sem base. Durante todo o processo de trabalharmos juntos com o COI e com o desejo de incluir o skate nos Jogos Olímpicos, a ISF agiu de forma ética e profissional, e esteve em conformidade com os regulamentos e requisitos exigidos pelo COI". A WADA afirmou que nós estamos em total conformidade em relação aos nossos planos e ao processo de educação. Isso é o que eu quero afirmar: a WADA e o COI afirmaram que tudo o que nós estamos fazendo está em conformidade. (...)
A minha visão sobre isso é de alguém que está no meio do skate por toda a minha vida. Eu sei que o skate não tem o problema das drogas de aumento de performance. Existe um monte de skatistas que fumam maconha? Sim, existem muitos e nós precisaremos ter um imenso programa educacional pra explicar a esses caras que eles terão uma escolha entre competir ou não naquele nível. Isso é exatamente o que nós iremos fazer.(...)
Digamos que você seja um skatista super talentoso de park da Finlândia. Você não tem oportunidades, não tem patrocínios, não tem nada, você é só um local que detona. (...) Se alguém te diz, "nós vamos pagar pra você andar de skate e vamos pagar pra você viajar e competir ao redor do mundo". Pra ele, isso vai valer como um milhão de dólares. (...) Se você é alguém super talentoso que deseja e precisa de uma oportunidade... Quero dizer, pense quando você estava crescendo: receber caixas de produtos são quase como ter um milhão de dólares, era tudo o que nós queríamos.
Então, voltemos àquele garoto da Finlândia que é o mais talentoso de sua cidade. Se alguém lhe der a seguinte oportunidade; 'ei, você pode participar de todos esses eventos ao redor do mundo, você pode ir pro Sul da Califórnia durante seis meses num ano e nós vamos te pagar pra que você treine lá, mas você não pode fumar maconha". Talvez seja um ótimo negócio praquele garoto.

Sobre as perspectivas do skate com status olímpico:
- "Existem prós e contras em tudo. Quanto mais eu me envolvi nesse processo e percebi o poder da mídia... Por exemplo, a NBC paga bilhões ao COI pelos direitos de transmissão, e eu me toquei do quanto de poder eles têm. Eu também me toquei que eles iriam fazer a coisa caso nós fizéssemos parte ou não; nós tínhamos a opção de mandar todos eles se ferrarem, mas eles iriam fazer de qualquer forma e seria muito ruim fazer o skate parecer tosco pra bilhões de pessoas. Ou nós poderíamos juntar as tropas e fazer da melhor forma possível, fazer parecido com o skate que nós conhecemos e amamos. Muita gente acha que os XGames são uma bosta, e eu também acho que têm algumas coisas nos XGames que não são nada boas, mas a metade das crianças que encontro nos skateparks ou em Woodward começaram a andar de skate porque eles viram algúem nos XGames. Eles acharam que o skate parecia legal. Pode ser que o Andy Macdonald tenha sido o primeiro skatista que eles tenham visto, mas um ano depois eles têm um model do Andrew Reynolds e estão acompanhando o King of the Road. Isso é o skate.
Eu vivo na Califórnia agora, onde existem inúmeras oportunidades no skate, tem um monte de lugares pra andar de skate, mas quando eu viajo pelo mundo, em nenhum lugar existem as facilidades e oportunidades que temos aqui. Quanto mais eu falo com pessoas que estão tentando construir pistas na Austrália, tentando fazer um evento na Malásia ou tentando conseguir fundos pra que um garoto supertalentoso da Europa possa competir pelo mundo afora, fica evidente que tudo isso seria muito mais fácil pra todas essas comunidades de skate ao redor do mundo se o skater tivesse nas Olimpíadas.
É muito fácil pra gente sentar na nossa bolha no Sul da Califórnia e dizer que o skate nas Olimpíadas é uma bosta. Tem um monte de coisas nos Jogos que são umas bostas, mas eu gosto da ideia de dar a oportunidade a algum garoto talentoso de qualquer lugar do mundo de competir em outros países. E eu gosto da ideia de bancar pistas de skate ao redor do mundo, o acesso às facilidades é imenso.
A única coisa que eu poderia dizer é que eu me liguei que isso iria acontecer com ou sem a gente, então eu decidi que eu gostaria de fazer parte da tentativa ao invés de dizer "eles que se ferrem", e depois ver acontecer de qualquer jeito e ter um resultado muito, muito ruim.
A coisa qiue eu ainda curto é que o skate nas Olimpíadas é algo de alguns dias a cada quatro anos. O skate vive, come e respira 24 horas por dia por 365 dias por ano. Existem vários esportes que vivem em torno das Olimpíadas; eu vejo os ginastas em Woodward, eles vivem em torno dos Jogos, é tudo o que o esporte faz. O skate tem uma vida própria, tem a sua própria cultura e uma comunidade que não vai estar nem aí pro que vai acontecer em Tóquio em 2020. Eles estarão filmando partes de vídeo por aí".

Sobre o legado do skate nas Olimpíadas:
- "Nós estamos tendo conference calls todas as manhãs, lutando pela preparação dos locais em Tóquio. Nós estamos batalhando pra que esses locais de competição sejam deixados como legados no futuro, o que eu acho que seria um grande começo. (...) Tudo isso ainda é muito preliminar. Nós já mudamos os locais das competições de skate em Tóquio algunmas vezes, mas é realmente importante pra nós que se deixe algo pra comunidade de skate em Tóquio. É muito prematuro prometer qualquer coisa, mas esse é uma das coisas nas quais estamos trabalhando que é super importante pra nós.

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Obviamente, a opinião de Neal Hendrix é "chapa branca", de alguém que participou de todo o processo - que, conforme foi visto acima, não foi nada fácil. Cada um de nós tem direito à sua própria opinião e de expressá-la do jeito que melhor nos convier. O meu objetivo não foi o de julgar, apenas mostrar que como o skate atingiu o recém adquirido status olímpico.

Na mesma matéria, o entrevistador Kevin Wilkins expõe um ponto de vista muito interessante a respeito do assunto:

"Não seria ótimo em ver como o skate muda a cultura do COI ou a cultura dos esportes internacionais? O skate modifica qualquer4 coisa na qual faça parte e seria muito maneiro em ver isso, eu tenho fé que o skate pode fazer coisas inacreditáveis. (...) Eu sempre tive 90% do lado de não querer o skate nas Olimpíadas, ou se eu achava que era necessário ou se eu achava que era uma boa ideia. Mas não sou eu quem decide essa coisa. Todos nós temos opiniões sobre o que nós gostaríamos de ver, então agora que vai realmente acontecer, é tipo: não seria ótimo se esse projeto de arte todo arranhado ensinasse ao mundo inteiro como se divertir?"

Eu não havia pensado nisso. Realmente, é algo que gostaria de ver. E que me faria dar muitas, muitas risadas.

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Falando em risos, não demorou nada pra que os memes começassem a aparecer. É muito melhor você encarar qualquer coisa com humor, e não é diferente nesse caso. Observe as duas imagens abaixo, que são bem a cara de quem consegue rir da vida.

Jeff Grosso "juiz olímpico." Foto: Skaters Over 50. 


Os anéis olímpicos depois do skate. Imagem: David Lober.

Assim é o skate: heterogêneo e emocionante.

Tem gente que não consegue entender o espírito da coisa. Li muitos comentários dizendo que "o skate morreu", "venderam a alma do skate" e coisas desse tipo. Nada disso, o skate vai continuar sendo o que cada um de nós deseja. Eu vou continuar a andar por simples diversão e prazer, tem gente que vai se empenhar ainda mais pra competir... Cada um na sua e todos sobre nossos skates.

A solução pros desiludidos é simples e está resumida nas geniais artes de Tiago Cambará, reproduzidas abaixo. Faço minhas as palavras dele. Viva, deixe viver e não encha o saco, já vai estar ajudando muito.




21.5.16

A catequese do skate

Nessa semana, o cenário do skate se viu agitado por polêmicas de várias origens e dimensões; sobre elas, comento mais adiante.

Antes eu reproduzo abaixo um texto brilhante escrito por Rodrigo Braga, skatista e dono da C4 Skateshop, do Rio, um dos caras mais lúcidos e atualizados do atual mercado de skate carioca. Sempre que tenho a oportunidade, paro em sua loja pra trocarmos uma ideia e muitas das vezes amplio a minha perspectiva em relação a algum tema envolvendo o skate. O cara já foi citado por mim num texto anterior, no qual comentei a respeito do tal "fazer pelo skate" e que você pode acessar aqui; preste atenção no que ele diz abaixo, com trechos em negrito escolhidos por mim.

Rodrigo Braga flipando na Duó - foto: Leone Iglesias.

A catequese do skateboard, por Rodrigo Braga.

Estamos em 2016 e o número de skatistas não para de crescer, mais que dobrando desde a última pesquisa realizada. O número de pistas de skate também vem crescendo exponencialmente, pelo menos no Rio de Janeiro. O número de marcas independentes, com donos skatistas ou de alguma forma ligados ao mundo do skate também está aumentando gradativamente. Então por que toda essa crise em nosso mercado?

A situação política e econômica do nosso país, é claro, dificulta todo o processo. Muitos impostos a pagar, pouco dinheiro circulando, o dólar caro demais, uma logística perversa que encarece nossos custos e a incerteza do que está por vir.

Mas acredito que o principal fator a ser analisado é a mudança que está em curso na cultura do skate, pois não vivemos mais nos tempos onde o skate era marginalizado e mal visto pela sociedade, quando as grandes empresas e o governo não queriam se meter. Com o desenvolvimento da prática do skate e o conhecimento, ainda que supérfluo, da grande massa sobre o que é ser skatista, mais e mais atenção tem sido deslocada para nós e ao nosso mercado. Cada vez mais pessoas que antes não tinham nenhuma ligação com o skate querem entender, participar e investir nesse estilo de vida, que tem se mostrado cada vez mais uma grande oportunidade pouco explorada.

Quem cresceu assistindo vídeos de skate em VHS, colocando silvertape nos tênis para que durassem mais e aprendeu manobras em sequências de fotos em revistas sabe que as coisas mudaram e são bem mais complexas do que a maioria pensa entender.

Nossa cultura sempre teve a sua fundação na união dos skatistas onde quer que estivessem, na pró-atividade de realizar projetos independentes sem depender de ninguém, de buscar regras para quebrar ou valores comuns a ignorar. E isso sempre refletiu nos negócios do skate, nas empresas fundadas por skatistas com times de amigos mais parecidas com uma família, onde o dinheiro não era o mais importante e sim o que se conquistava, as experiências, os vídeos que eram produzidos, as fotos, e isso tudo era motivo de orgulho para vestir a camisa da marca e tatuar na pele como se já tivesse nascido com ela. Não me lembro de ver pessoas tatuando logos de empresas em outros segmentos, talvez o mais perto sejam fãs de música tatuando seus ídolos no corpo como forma de expressão da sua identidade.

Mas isso mudou; com o boom do skate, principalmente nos EUA e na Europa, grandes marcas decidiram entrar na festa e garantir a sua fatia do bolo, mas nos esquecemos que eles não tiveram o mesmo background que nós, eles vieram por outros motivos. Dinheiro! Não adianta ter um pensamento idealista de que as grandes corporações vão trabalhar da mesma forma, tudo o que eles fazem é pensando em um resultado lá na frente, uma estratégia bem calculada por pessoas capacitadas para tal objetivo. O capital delas comparado ao de empresas independentes é infinitamente maior, sem falar no grau de influência que exercem em diversos aspectos. Elas conseguem, através dos seus recursos, captar os melhores skatistas, fazer os melhores produtos, as melhores propagandas, ter um alcance jamais imaginado, doutrinar os skatistas mais novos que ainda estão começando e não sabem de muita coisa hoje, mas que no futuro farão a diferença. E como resultado disso tudo, os negócios locais ficam fragilizados.

O futuro pertence a elas, as grandes marcas esportivas, as grandes redes de lojas, as revistas superficiais, aos vídeos “mais do mesmo” e a banalização do skate. E onde o skatista do cotidiano fica? Isso só depende de nós; o que podemos fazer para mudar isso? Se é que se entende que isso deva ser combatido. Onde queremos estar daqui a 20 anos? Estamos no caminho certo? O que você acha? O que você faz? Reclamar, postar no Facebook e continuar comprando errado não adianta, amigo. Não podemos achar que estamos isentos por estarmos longe do centro de decisões: nós somos a extremidade do iceberg, eles podem fazer o que quiserem, mas se resistirmos será tudo em vão!

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Eu não poderia ter escrito melhor e o timing não poderia ter sido mais oportuno: como disse no início do texto, a semana que passou foi pródiga em exemplos da influência das grandes corporações em alguns cenários de skate, sendo um deles em nosso próprio país. 

Marc Johnson e Daewon Song - foto: The Skateboard Mag.
Primeiro foi o anúncio da adesão dos skatistas Marc Johnson e Daewon Song à equipe da adidas durante a premiere do vídeo "Away Days" em LA. Ambos tinham relacionamentos bem longevos com seus patrocinadores de tênis anteriores (Lakai e DVS, respectivamente) e a movimentação pegou o mercado completamente de surpresa. A entrevista de Mike Carroll à Jenkem colocou ainda mais lenha na fogueira e inflamou os xiitas, que não economizaram em xingamentos aos "traidores das raízes do skate". Sites especializados do mundo inteiro, inclusive do Brasil, se apressaram a divulgar o conteúdo, dando ênfase às opiniões nada elogiosas do dono da Lakai ao seu agora ex-patrocinado. Da mesma forma, as redes sociais fervilharam em comentários que atacavam os skatistas, chamados de "traíras" pra baixo.
Não estamos falando de dois skatistas quaisquer. Daewon Song é um dos caras mais técnicos e revolucionários do skate atual, cujos vídeos são um primor de progressão de manobras e de diversão; ele já declarou numa entrevista que fiz pra Tribo que sua maior curtição é emendar manobras umas nas outras só pra ver se é possível, ampliando os seus limites e dando boas risadas ao mesmo tempo. Já Marc Johnson será pra sempre reconhecido como o cara que mais executou manobras de flip complicadas com o máximo de fluidez possível, sendo considerado um mestre do flow no street; da mesma forma, será sempre cobrado como o cara que declarou que "jamais seria patrocinado por uma corporação" e ter se desmentido depois...
Uma coisa o jornalismo me ensinou: é preciso saber ambos os lados de uma história pra se poder fazer um julgamento isento; foi o que fez a The Skateboard Mag, que foi escutar Johnson e Song e botou no ar um resumo da conversa e um vídeo da mesma. Daewon conta que sua antiga patrocinadora agora faz parte de uma corporação que não sabia nada de skate e que ele não estava concordando com os rumos que estavam tomando; já MJ relata que tinha projetos que jamais foram levados adiante por seu antigo patrocinador de tênis, e que ele conversou e negociou com alguém que lhe deu ouvidos e apoio. Agora olhe-se no espelho e seja bastante sincero: você teria feito diferente se você tivesse na situação deles?

Duane Peters causando na Pool Party 2016 - foto: Arquivo Pessoal.
A segunda polêmica foi causada por ninguém menos que Duane Peters, o eterno Master of Disaster, após a realização do Vans Pool Party da semana passada. O legendário skatista soltou o verbo contra aquilo que ele chamou de "trapaça": adesivos indicando as melhores linhas nos bowls e algum tipo de lubrifricante usado no coping pra deslizar mais. Segundo ele, os adesivos até seriam aceitáveis numa competição de carving, jamais num evento de bowl, e "engraxar" o coping seria desonesto com os skatistas que usam grabbers (como ele e a maioria dos competidores da categoria legends).
Antes que você pense que se trata de mais uma encrenca do punk velho, o próprio presidente da WCS, Don Bostick, se manifestou a respeito dizendo que a manutenção da Combi Pool é feita pelo staff do skatepark. Embora não tivesse recebido nenhuma outra reclamação a respeito do assunto, Don garantiu que não haverá mais adesivos indicativos de linhas nos próximos eventos no local. Além dissom, o chefão agradeceu ao DP por ter aparecido de surpresa e competido no evento, como a figura história e carismática que ele é no universo do skate.

Pra encerrar a semana de assuntos polêmicos, faço uma pergunta: qual seria a sua opinião se você soubesse que agora você pode comprar skates e equipamentos no site das Casas Bahia? Não se tratam de produtos vagabundos, nada disso: são de marcas como a Boulevard, por exemplo - a mesma marca que, há poucos dias, trouxe ao país parte de sua equipe pra uma tour de lançamento do seu mais novo vídeo. E não é só isso, pode-se também adquirir uma seleção bem variada de produtos e marcas a preços atraentes e divididos em 10X sem juros, distribuídos por uma skateshop genuína.

Premiere do video da Boulevard na C4 Skateshop (Rio) - foto: Rodrigo Braga.
Fico só pensando nos lojistas que investiram tempo e dinheiro nas premieres dos vídeos. Como se não bastassem as redes online de artigos esportivos, agora eles precisam se preocupar com grandes varejistas entrando no mercado de voadora, apoiados por uma empresa do próprio cenário de skate...

Alguém aí disse "tiro no pé"?! 

18.4.16

Sem perdão para os caídos

Na última semana, o cenário de skate foi pego de surpresa com o anúncio do encerramento das atividades da marca de tênis Fallen, do icônico streeteiro Jamie Thomas. Muitos sites ao redor do mundo reproduziram partes da entrevista que ele deu ao site Jenkem, na qual ele explica as razões pelas quais acabou vendo-se forçado a encerrar a marca. O original está aqui, naturalmente em inglês.

Jamie Thomas e sua marca. Foto: Dan Sturt (Jenkem).

Dentre os motivos alegados, JT apontou a estratégia de cooptação agressiva de skatistas amadores e pros por parte de uma corporação fabricante de tênis - no caso, a Nike. Além disso, ele relatou que essas corporações exercem uma pressão constante sobre os lojistas pra que comprem cada vez mais os seus produtos, diminuindo o espaço destinado às marcas "de raiz" (como a Fallen) em suas prateleiras. Ele ainda indicou uma série de fatores consecutivos que contribuíram pro enfraquecimento da marca, como a saída de Chris Cole da equipe, o incêndio na fábrica em que os tênis eram produzidos e o tempo gasto pra que os novos fabricantes se encaixassem nos padrões de qualidade exigidos por ele.  

Foi só a notícia ganhar a rede pra que inúmeros skatistas do mundo inteiro começassem não só a lamentar pelo fim da Fallen, como também a detonar marcas corporativas de tênis pra skate. "Foda-se a Nike!", "Fora Adidas!" e "Não aos haoles" foram alguns dos lemas mais comuns, a ponto da hashtag #fucknike ter constado entre os trending topics do Twitter no dia em que a entrevista foi ao ar. Algo bastante compreensível, claro, afinal de contas é uma marca "core" que saiu do mercado, evidenciando a velocidade dos tempos mutantes que vivemos atualmente.

Muita calma nessa hora, minha gente: é preciso que os fatos sejam analisados como um todo, não apenas levando-se o fim da marca em consideração. 

Conheci Jamie Thomas no início dos anos 90, quando ele havia recém passado pra pro. Quem me chamou a atenção pra ele foi o fotógrafo Bryce Kanights durante uma sessão em Wallenberg (San Francisco), dizendo "presta atenção naquele garoto, ele parece ter um motor nos pés". O cara andava em velocidade supersônica, algo admirável praquele momento em que rodas minúsculas eram usadas no street. Não por acaso, ele foi um dos que passaram direto nas eliminatórias do evento "Back To The City" no dia seguinte - o maior campeonato de street da época -, sendo o único pro iniciante a conseguir o feito. Os anos se passaram e ele ganhou notoriedade por dois motivos: ter fundado a sua marca Zero e pelo chamado "leap of faith", uma foto que virou poster de revista e escancarava mais uma vez que o impossível não existe pra um skatista.

O "leap of faith" de Jamie Thomas, uma imagem impressionante pra todo o sempre.
Alguns anos mais tarde, JT resolve lançar a sua própria marca de tênis chamada Fallen, uma alusão tanto aos skatistas que vivem caindo (e se levantando depois) quanto aos anjos caídos citados na Bíblia. Um passo ousado, uma vez que já havia sinais de que as corporações de artigos esportivos como a Nike, a Adidas e a Puma estavam entrando no mercado de tênis de skate com todo o poder que lhes é característico. Nada que um bom produto aliado a uma boa equipe e uma tática de marketing direcionada ao seu público alvo não resolvesse; além disso, os skatistas em tese sempre vão preferir uma marca "de raiz" a outra "paraquedista" - pelo menos essa foi a percepção que havia na época.

Os tempos mudaram e, com eles, mudou todo o cenário do skate. Cada vez mais corporações entraram no mercado, sejam elas de materiais esportivos, bebidas energéticas ou roupas. Competições como os XGames e Street League levaram o skate a lares de todo o planeta e alguns skatistas alcançaram o patamar de verdadeiros pop stars, sempre apoiados por essas mesmas corporações que entraram de sola no mercado. Ao mesmo tempo, as ladeiras e ruas de orla de todo o planeta viram surgir uma multidão de longboarders, cujo maior objetivo não era ampliar os próprios limites ou ainda seguir os códigos que existem no universo do skate, mas simplesmente se divertir dando um rolé sem compromisso ou usando o skate como meio de locomoção.

É evidente que os novos skatistas surgidos por causa da exposição massiva do skate na mídia ou pela atração aos longs não cresceriam tendo os mesmos valores das décadas anteriores; eles teriam as suas próprias referências, criariam as suas próprias raízes e desenvolveriam os seus próprios valores. Os fãs de tevê se identificariam com as marcas que viam nas telinhas em primeiro lugar, enquanto a maioria dos novos longboarders não ligava a mínima pra isso. Não cabe julgar se estão certos ou errados, mas sim aceitar as mudanças e procurar adaptar-se a elas.

Acreditar que cada vez mais skatistas surgiriam com os mesmos valores de 20 anos atrás é um erro imenso.

O que muitas marcas de tênis fizeram? Procuraram correr na frente do prejuízo, investindo em novos produtos e novas tecnologias em primeiro lugar pra somente depois atacarem o cenário com suas estratégias de marketing. Com os monstros corporativos bufando em busca de aumentar cada vez mais as suas fatias de mercado, o certo seria defender-se da melhor forma: oferecer o melhor produto possível aos seus consumidores e torná-lo acessível a quem quisesse revendê-lo. O que a Fallen fez? Praticamente repetiu as coleções durante anos seguidos, acreditando na mística de "marca de raiz" e ignorando aquilo que as novas tendências de mercado exigiam. Como se não bastasse, os produtos da marca não se igualavam aos antigos e havia alguns problemas na distribuição dos mesmos. Veja as imagens abaixo das coleções de 2009 e 2010 e tire as suas próprias conclusões quanto ao quesito "evolução de produto".



A única marca do mercado de tênis de skate que pode se dar ao luxo de oferecer o chamado "mais do mesmo" é a Vans, que existe há nada menos que 50 anos; mesmo assim, a qualidade dos produtos deles melhorou bastante em relação a décadas passadas. Tenho guardado em casa um par de Vans dos anos 80 que, comparando com os atuais, sempre me leva a pensar como a gente podia usar algo tão primitivo em tempos idos... Pra mim, a Vans sempre teve o melhor solado, aquela mistura de látex com uretano em formato de waffle que todos os skatistas adoram, mas nem sempre foram os tênis mais confortáveis. Foi preciso que a marca fosse vendida a uma corporação pra que o conforto também passasse a ser uma característica marcante de seus tênis, tal qual o solado ou a lista ondulada lateral. Se não fosse assim, muito provavelmente não teriam a força de mercado que possuem atualmente, mesmo sendo a marca mais core de todas.

Em 40 anos de skate, já usei tênis das mais variadas marcas e estilos. Puxando pela memória: Bamba, Rainha, All Star, Vans, Mad Rats, Isnaú, Kick, Nike Air Jordan, M2000, Vision, Airwalk, Awesome (uma dissidência da Vans), Globe, Puma, Osiris, Lakai, Qix, Freeday, Converse, Öus, Adidas, Nike, Vans... Alguma marca deve ter escapado com certeza, já que nunca fiz uma lista com os tênis que já usei na vida; tenho certeza das que nunca usei, que prefiro omitir por não vir ao caso aqui.

Uma coisa precisa ser dita: as marcas corporativas sabem fazer bons tênis. Ganhei um par de Adidas Silas de um amigo que trabalha na marca, o qual usei no slalom e atualmente uso direto pra fazer a fisioterapia do joelho. Também ganhei um par de Nike SB de cano alto após uma consultoria informal à marca, o qual usei em sessões de free ride e atualmente uso de vez em quando em dias chuvosos. Ambos os tênis são resistentes e extremamente leves, além de terem bons solados e serem muito confortáveis. Não recebi um tostão pra falar bem dos produtos; minha avaliação é a de um skatista veterano que sabe o que esperar de um bom tênis de skate.

As marcas de raiz precisam aprender a investir pesado em bons produtos, a terem distribuição confiável e a adotarem estratégias diferenciadas de marketing. É isso ou ficarão relegadas a uma fatia de mercado cuja tendência é diminuir cada vez mais, até o ponto de virarem apenas uma memória. Se isso acontecer, não vai ter mimimi que dê jeito.

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Dois pontos:

1) Três dias depois que Jamie Thomas anunciou o fim da Fallen, um site de negócios de boardsports anunciou que ele estaria negociando com a New Balance.

2) Um amigo brasileiro que tem uma skateshop na California confidenciou que, sim, as táticas de vendas das marcas corporativas são agressivas, mas que a Fallen tinha sérios problemas de distribuição - a ponto dele ter desistido de trabalhar com a marca.

Agora sim, tire as conclusões que você quiser.


12.3.16

"Fazer pelo skate": mitos e verdades.

Quase diariamente, vejo gente em redes sociais se vangloriando por aquilo que "fazem pelo skate". Algumas até têm razão, pois realmente constroem e fortalecem os cenários nos quais estão envolvidas, mas a maioria usa a expressão como uma forma disfarçada de autopromoção. Não digo aqui que fazem por mal, pois prefiro pensar que boa parte dessas pessoas não têm a noção exata do que realmente seria o significado da expressão que tanto gostam de usar.

Afinal de contas, o que é exatamente "fazer pelo skate"? Algumas décadas de prática como skatista, de trabalhos nos bastidores e de muita observação ao que acontece por aí me ensinaram a separar o joio do trigo. Basicamente, envolve um preceito bem simples: fazer pelo skate é fazer algo por amor ao skate, sem visar o lucro ou a autopromoção. 

Saiba você também o que é mito e o que é verdade.

SKATISTAS 
- Se você tem patrocínios e apoios, deve representá-los da melhor maneira possível. Ter boas colocações em campeonatos, manter uma boa atitude em sessões, eventos e demonstrações, fazer por onde pra estar em evidência na mídia e em redes sociais: tudo isso não é nada além de sua obrigação como skatista patrocinado(a). Você está na verdade fazendo por si e por quem te apóia, não pelo skate como um todo, portanto não se iluda. 
- Se você faz tudo o que se espera de um(a) skatista patrocinado(a) e ainda vai além, como participar de clínicas e escolinhas de skate voltadas a comunidades carentes, fazer palestras gratuitas em escolas públicas e particulares e auxiliar no aumento da amplitude do skate em sua região, você pode dizer com orgulho que "faz pelo skate". Cito aqui dois exemplos, não por acaso dois campeões mundiais: Pedro Barros e Douglas Dalua; siga-os em redes sociais e veja como eles promovem o skate muito mais do que se esperava deles. Não por acaso, o gaúcho bicampeão mundial de speed recebeu uma medalha de mérito esportivo da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, um reconhecimento vindo de onde muitos não esperam nada. 
- Se você não tem ou não liga pra patrocínios e apoios, mas participa ativamente do cenário de sua cidade e de sua região - seja através de associações ou de organizar eventos, de construir ou reformar pistas e obstáculos, de facilitar as vidas de outros skatistas de alguma forma, de levar a cultura do skate onde menos se espera -, você está sim fazendo pelo skate. Os exemplos são variados: no estado do Rio, Bruno "Funil" Collyer, Fabio "Azul" Moura, o Coletivo I ♥ XV, Eduardo "Dinheiro É Papel" Bairrinhos, Rodrigo "Rato" Steinbach, Ernani Taitai e Romeu Lins (de Campos); em SP, Sandro Soares "Testinha" e sua Social Skate ou o Sergio "Pato" e seus Anjos Guerreiros; em MG, o grupo de skatistas-ativistas liderados pelos veteranos Dota Bones e Cleiber "Binha", além da galera da Federação Mineira de Skate Downhill; em SC, a incansável Tielle Haas; no RS, Claudio "Kaká" Verardi; em RN, a galera de Ilzeli Confessor, Paulo Costa e Tercílio Albano; em PE, Bruno "Fish" e o legado deixado pelo saudoso Marcelo Lyra... Bons exemplos não faltam, procure saber o que eles articulam e realizam em suas cidades ou estados e inspire-se neles.

Sandro Testinha e sua Social Skate, talvez o melhor exemplo que exista de "fazer pelo skate" no Brasil.
Foto: Social Skate.
MERCADO
- Se você tem uma marca ou loja e fabrica / vende os melhores e mais variados produtos possíveis, você está simplesmente fazendo aquilo que se espera de você, nada mais. 
- Se você tem uma empresa e, além de fabricar / vender, fomenta o cenário, patrocinando skatistas e eventos, realizando demonstrações nos mais variados locais do país e incentivando a mídia especializada, você está de alguma forma fazendo algo pelo skate. Mesmo que isso possa gerar mais vendas e lucros mais adiante pra sua marca / loja, essas atitudes demonstram uma visão muito mais holística do que é a cena, e isso é um motivo de orgulho por suas realizações. Infelizmente, empresários assim ainda são uma minoria no Brasil, o que explica muita coisa no cenário atual do país. Não preciso citar nomes ou marcas, os próprios skatistas sabem quais são essas empresas. Compre deles e ignore os outros, praticando o que se chama de consumo consciente.
- Se você é empresário(a), faz tudo o que foi descrito acima e ainda mais, como por exemplo auxiliar na construção ou reforma de pistas e picos, incentivar a prática em comunidades carentes (cedendo skates e acessórios), você pode encher a boca e dizer que faz pelo skate. Cito um exemplo local daqui do Rio, o Rodrigo Braga e sua C4 Skateshop, um cara novo que não fica só atrás do balcão, mas também fomenta a cena de street da Duó (numa área nobre da cidade) e, ao mesmo tempo, fornece condições pra que o skate seja difundido na Comunidade do Caju, uma enorme área carente na Zona Portuária da cidade. Sei que existem outros por aí, mas prefiro dar uma moral a alguém da mesma cidade onde moro.

Rodrigo Braga (de barba) e a galera da Comunidade do Caju.
Foto: Arquivo pessoal.

MÍDIA
- Se você é responsável por alguma mídia especializada de skate e publica de acordo com as demandas do mercado, você está fornecendo uma informação bastante restrita ao seu público-alvo. Sei muito bem como isso funciona: o editorial precisa andar lado a lado com o comercial, isso é fato consumado, mas acaba tornando-se refém dele. Essa é uma prática normal no meio, mas traz algumas distorções - como, por exemplo, não se mencionar skatistas, eventos ou iniciativas que tenham ligação com marcas que não fazem publicidade no veículo de mídia, a não ser que seja algo impossível de ignorar, Muitos chamam isso de "prática editorial"; já eu prefiro chamar de "politicagem". Desculpe te informar, mas esse tipo de mídia de mercado com base em personagens e eventos não é "fazer pelo skate", é simplesmente jornalismo de mercado.
- Por outro lado, se a sua publicação é voltada ao cenário e você publica o que acontece de mais relevante nele, seja onde for e tenha o protagonista que tiver, independente de agradar ou não aos patrocinadores de seu veículo de mídia, então você está fornecendo a informação mais ampla possível ao seu público. Ao ser capaz de publicar algo que não goste particularmente, mas que possa agradar a uma parcela do público, você prova que tem o despojamento fundamental pra praticar o bom jornalismo. Se o conceito de informar vem antes de ganhar dinheiro em seu dicionário, você está fazendo pelo skate.

ENTIDADES DE CLASSE
- Se você participa de uma associação ou federação, promove eventos ou circuitos locais ou regionais de uma ou duas modalidades e auxilia de alguma forma na construção ou na reforma de pistas e picos de skate, está fazendo aquilo que se espera de você e de sua entidade. Não basta comparecer a boa parte dos eventos relacionado ao skate, sejam campeonatos, demonstrações ou tours; isso não te faz ser eficiente, apenas mostra que você está presente. Ignorar aquilo que acontece nos cenários de outras modalidades que você não pratica e/ou se envolva também não acrescenta absolutamente nada. 
- Se você faz o básico que foi citado acima e vai adiante, buscando parcerias públicas e privadas não só pra construir e reformar pistas como também pra auxiliar na difusão da prática do skate em comunidades carentes e escolas públicas, promovendo clínicas e escolinhas abertas ao público - colocando sempre a entidade em destaque, jamais o próprio ego - e fomentando os cenários de todas as modalidades, então você e sua entidade estão realmente fazendo algo pelo skate.
- Dirigir quando for preciso e delegar sempre que necessário, esse é o mantra que os responsáveis por entidades de classe devem seguir.

Claudio "Kaká" Verardi, comandando a largada do Mega Grand Prix.
Foto: Divulgação / MegaSpace.

Basicamente, é isso. Se a pessoa coloca o amor e a necessidade do cenário na frente do interesse financeiro, então está a "fazer pelo skate". Espero ter ajudado a identificar quem é de verdade e quem está (se) iludindo. Preste muita atenção, analise os fatos e as pessoas com o máximo de calma e tire as suas próprias conclusões

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Tem gente que acha que eu falo / escrevo demais e pensa que sou apenas um skatista veterano que fica com a bunda sentada na cadeira sem produzir nada pelo cenário. É bem verdade que ultimamente o meu trabalho jornalístico tem se sobressaído em relação às outras atividades que exerço ou que já exerci... Ora, quem sou eu pra achar que posso falar tanto sobre o skate? Eu poderia ser bastante pretensioso e dizer "busca no Google", mas resolvi te poupar do trabalho... 

- Skatista desde 1975, já pratiquei todas as modalidades com exceção de long distance push, atualmente me recuperando de grave lesão no joelho. Em 1987, fui o primeiro brasileiro a competir no Münster Monster Mastership, então chamado de "Mundial da Alemanha", no qual fiquei em 14o lugar no street pro. Há pouco mais de 20 anos, tenho buscado voltar às minhas origens praticando mais skate de ladeira do que qualquer outra modalidade.
- Jornalista de skate desde 1984. uma época em que sequer se cogitava em ganhar dinheiro com a imprensa, simplesmente se agradecia pelo pouco espaço que era disponível a cada 2 meses e se fazia o máximo pra enchê-lo com a melhor informação possível. Fui editor de skate da Visual Esportivo e colaborador de publicações como Yeah! Skate, Skatin' e Tribo Skate, na qual escrevo desde a primeira edição até os dias de hoje. Sou o primeiro skatista-jornalista brasileiro a cobrir os cenários de Brasília e do Nordeste (em 1986, se não me engano) e, também, o primeiro a viajar pra fazer matérias sobre as cenas de Lima (Peru), Santiago (Chile) e Buenos Aires (Argentina), em 1990. Também sou o primeiro skatista-jornalista brasileiro a cobrir os A.S.R. Trade Shows, entre o início e os meados dos anos 90. Já contribuí com mídias especializadas estrangeiras como Thrasher, TWS, Slap, R.A.D., BoardMag e Concrete Wave, entre outras, além de veículos como o Jornal do Brasil, O Globo e Folha de São Paulo, entre outros. 
Editor de publicações especializadas como os extintos Skate&Bordas (entre 1997 e 1999, ao lado do Jorge Luiz "Tatu") e Na Base Skt Zine (entre 1999 e 2000), voltados à cena carioca de modo geral. Atualmente, sou um dos editores da revista CRVIS3R Skateboarding, voltada ao longboard e ao skate de ladeira. Com orgulho, todas a publicações com foco nos cenários da forma mais ampla possível, incluindo um destaque merecido às pessoas que só andam de skate pra se divertirem sem compromisso com marcas ou códigos de vestuário, por mais que isso incomode algumas poucas pessoas ligadas ao meio.
- Fundador e membro ativo de entidades de skatistas como a S.U.A.T. (Skatistas Unidos Anarquia Total) também em 1984, a primeira entidade formada por skatistas no país, que promoveu campeonatos e realizou o primeiro ranking amador e semi-pro do Brasil; da U.S.E. (União de Skatistas e Empresários) em 1988, que serviu de base pra U.B.S. (União Brasileira de Skate) em 1989, entidade que promoveu circuitos de street e vert com o mínimo de 3 etapas por ano (com exceção de 1991 e 1992), desde a sua fundação até a sua dissolução; da A.S.R. (Associação de Skate do Rio) em 1991, que realizou circuitos amadores desde a sua fundação até o final do século passado e foi a responsável pela construção de pistas de skate como o bowl do Rio Sul, o banks da Lagoa e de minirrampas nas zonas Norte e Oeste do Rio. Além disso, a A.S.R. mantinha monitores constantes responsáveis por escolinhas em algumas pistas de skate, sem falar em promover iniciativas de inclusão do skate em escolas públicas com parcerias privadas. Nesse século, fui eleito pro Conselho de Skate de Ladeira da CBSk por 2 ou 3 anos, além de ter sido incentivador na formação da U.S.R. (União Skate Rio).
- Locutor de eventos de skate e esportes de ação desde 1988, tendo trabalhado em eventos da A.S.R, U.B.S, CBSk e Slide Liga, além de inúmeros outros independentes. Sou o único locutor brasileiro e latinoamericano a ter trabalhado em etapas locais de circuitos mundiais de todas as entidades de alcance global, com exceção da AIS e da ILDSA; isso inclui a WCS (street e vert), a IGSA e a IDF (downhill speed e luge), a IFSA (freestyle). Até os dias de hoje, faço desde locuções de eventos corportativos até outras realizadas de graça onde quer que seja, desde que o evento seja fundamental pro fortalecimento do cenário do skate em si e que me paguem o transporte, a hospedagem e a alimentação. Além disso, fui MC de três edições dos XGames Latinoamericanos e já fiz locução bilíngue num evento de snowboard em Valle Nevado (Chile), etapas do circuito paulista de wakeboarding e do circuito brasileiro de jet-ski. 
- Radialista e produtor musical, tendo produzido alguns programas McTwist (1988) e sendo produtor e apresentador de programas de rádio como Night Session (entre 1992 e 1994) e Na Base (entre 2002 e 2004), todos na Fluminense FM. Além disso, também produzi e apresentei os programas Studio Skate (na Zona Sul FM), Skate Session (na Costa Verde FM) e alguns módulos sobre o skate que fora ao ar na 89 FM (SP). 
- Palestrante sobre o skate e sobre a cultura relacionada a ele, com participações em escolas públicas e em faculdades de jornalismo de universidades como a UERJ, PUC-RJ e FACHA, além de cursos de idiomas como IBEU e Brasas - nesses dois últimos casos, em inglês -, todas elas sem cobrar nada. Sou o único skatista-jornalista a participar de palestras da exposição 30 Anos de Punk Rock, promovida pelo CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil), em 2005; da mesma forma, sou o único skatista-jornalista a ter participado do simpósio "Crescimento e Alcance da Mídia Segmentada", realizado pela ABI (Associação Brasileira de Imprensa) no início dessa década. 
Escritor, co-autor dos livros "A Onda Dura" (Parada Inglesa Editorial, 2000) e "Almanaque do Banheiro" (Editora Jacoticaba, 2007), o qual escrevi sobre o skate e sobre o Batman.

Detalhe: tirando um período de pouco mais de 2 anos de minha vida entre 1988 e 1990, nunca trabalhei exclusivamente com o skate e seu cenário. Isso sempre me permitiu ter o distanciamento e o máximo de isenção possíveis, duas características de meus trabalhos das quais me orgulho muito. Afinal, elas me permitem ter a noção daquilo que acho ser certo ou errado, sem me contaminar com eventuais interesses financeiros ou pessoais.

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É óbvio que nada disso me dá o título de "dono da verdade", nada disso; sou apenas dono de minhas verdades e olhe lá. A minha história e a moral adquirida nos mais variados cenários foram construídas com muito suor e um bocado de sangue e pele deixados em pistas, ladeiras, obstáculos e quadras ao redor do mundo nos últimos 41 anos e pelos trabalhos que venho realizando nos bastidores em diversas áreas de interesse. Tenho muito orgulho de minha história mostrar que é possível sim fazer pelo skate sem ter o lucro ou a autopromoção como objetivos primordiais; se forem consequências, é ótimo, mas não é o que em move em primeiro lugar.

Se sou um idealista ou um babaca, realmente não sei dizer. Só sei que sou movido pela paixão e pela necessidade em aquilo que faço, e não falo aqui em necessidade de pagar as contas, mas sim daquilo que precisa ser feito. Se você me entende, então somos meio parecidos de alguma forma; caso contrário, eu sinto muito mas só posso lamentar por você...

Skate: ame-o sem interesse ou simplesmente deixe-o.

6.3.16

Sistema errado = resultado ruim.

Nos últimos 15 meses, tive a oportunidade de estar presente em campeonatos de todas as modalidades do skate, seja fazendo a locução, a cobertura jornalística ou simplesmente como espectador. Os eventos foram os mais variados possíveis, tanto de dimensões quanto de orçamentos, indo de disputas locais a etapas de circuitos mundiais realizados no país. Como skatista veterano que já praticou todas as modalidades (com exceção de long distance races, as corridas de impulso), posso dizer que foi uma chance rara de presenciar a evolução do nível dessas modalidades ao vivo, uma chance rara que me enche de gratidão e de orgulho.

Um fato comum me chamou a atenção: houve dúvidas e discórdia em relação aos resultados em todas as disputas regidas por critérios de julgamento subjetivos. Ou seja, houve polêmica onde quer que os juízes tivessem de aplicar os seus conhecimentos teóricos e práticos. Vi isso acontecer em campeonatos de vertical, street, downhill slide e freestyle; somente nas disputas de downhill speed, slalom e push races, que são regidas pelo cronômetro, não houve qualquer contestação em relação aos classificados ou aos vencedores. Se você acha que "é muito mais fácil escolher um vencedor através do critério do tempo", engana-se redondamente. Existem regras em baterias de speed, como os tipos de contato entre os competidores, as mudanças súbitas de trajetórias e as maneiras corretas de se entrar e sair do vácuo; da mesma forma, o slalom também tem as suas nuances, principalmente no que diz respeito aos cones eventualmente derrubados e à forma que se cruza a linha de chegada; também as push races têm as suas regras, pra evitar que algum "Dick Vigarista" empurre outro competidor ou corte caminho no percurso.

O fato em si não é novo. Um grande amigo meu costuma dizer que "onde tem campeonato, tem problemas", e isso é algo que ele vem repetindo desde os anos 80. Portanto, é óbvio que não estou redescobrindo a pólvora ou redesenhando a roda, mas foi a amplitude da questão que me chamou a atenção e me deixou preocupado.

No entanto, todos os problemas poderiam ter sido resolvidos caso os organizadores tivessem tomado a seguinte decisão em relação ao sistema de julgamento: cinco juízes, separados entre si e notas abertas.

Vou ser bem didático, especificando ponto a ponto:

Ih, deu ruim... também, quem mandou botar só três juízes?
- Cinco juízes - Já está mais do que provado que o sistema com apenas três juízes não dá certo, mas infelizmente há organizadores de eventos que ainda não querem entender. Imagine a seguinte situação: um competidor acaba a sua apresentação e recebe as notas 55, 65 e 70. Tenha em mente que um bom julgamento é aquele no qual as notas estão dentro de uma média de 10 pontos, portanto já dá pra ver uma distorção aqui. O juiz que pontuou 55 achou que a apresentação foi regular, o do 65 indicou que o desempenho foi entre regular e bom e o da nota 70 já considerou a performance boa. Entendeu agora? O certo seria ter cinco juízes, cortando-se a nota maior e a menor e obtendo-se uma média aritmética entre as três restantes. O principal argumento em defesa dos três juízes é o do orçamento, algo que sinceramente não me convence; trabalho com isso há décadas e sei que sempre há gorduras a serem enxugadas, principalmente nos cachês destinados aos promotores. O melhor então é deixar de ter olho grande e coçar o bolso pra que a disputa ocorra com o mínimo de imprevistos possível.


"Tudo junto e misturado", um cenário perfeito pra erros. 
 - Juízes separados entre si - Se eu ganhasse um dinheiro a cada vez que visse juízes distraídos durante a apresentação de um competidor, talvez nem precisasse mais trabalhar... Os juízes precisam sim conversar, mas antes e depois das baterias ou da fase de competição, até pra compararem notas e trocarem ideias em relação aos critérios adotados. Outro fator negativo é a influência de um juiz sobre os outros, algo fácil de acontecer quanto todos estão juntos. Há pouco tempo, vi uma cena numa semifinal de etapa de circuito mundial de vert que me deixou pasmo: os cinco juízes estavam juntos e, após a apresentação de um competidor, um deles se virou pros outros e disse: "acho que essa foi uma volta pra 72". Achei estranho, pois o cara não era head judge nem nada, e gravei a volta do skatista pra conferir as notas depois. Não deu outra: tinham duas notas 72 e as outras estavam bem próximas... O "grande" trabalho da organização no caso da separação dos juízes será o de arrumar guarda-sóis pra todos os juízes, isso em caso de eventos ao ar livre, algo que é muito fácil de ser viabilizado.

- Notas abertas - Deixei por último porque é o ponto mais importante. Notas abertas ao público transmitem confiança e transparência, além de agilizar o processo de cálculo das médias, já que o anotador pode ter todas as médias prontas ao final da bateria ou da fase de competição. Basta treinar os juízes pra que os mesmos formulem e escrevam as suas notas em 30 segundos, por exemplo, e a questão do tempo está resolvida. Curiosamente, só os eventos com transmissão pela tevê é que vemos notas abertas, uma exigência das emissoras pra agilizar a transmissão. Tudo bem que campeonatos televisivos são diferentes, com outra dinâmica de competição e tudo o mais, mas são os eventos de skate com a maior visibilidade ao grande público. Em termos de estrutura, será o orçamento do evento que irá dizer o meio de transmitir essas notas ao público e à organização; podem ser quadros negros com giz, quadros brancos com canetas, blocos de números e até pequenos placares eletrônicos. Jeito há, o que falta é vontade de fazer. Notas fechadas não resolvem NADA, simples assim.

Tem muitas formas de se dar notas abertas; o que não se tem é vontade.


Promotores de eventos de skate costumam "procurar cabelo em casca de ovo", pra usar uma expressão popular; quase sempre, buscam arrumar uma justificativa de caráter financeiro ou estrutural pra não fazerem o que precisa ser feito. Essa foi a razão pelo qual alguém resolveu adotar o horrível sistema de três juízes, ou de colocá-los juntos ou ainda de preferir as notas fechadas. Paralelo a isso, o $$ que colocam no bolso por conta do evento é "sagrado", nem que isso prejudique o próprio evento em si. Na boa, eles não me convencem. Se não podem pagar por cinco juízes nem oferecer estrutura pra que os mesmos fiquem separados e façam o julgamento com notas abertas, então não podem organizar eventos de skate, simples assim.

Nosso país é o segundo maior cenário e o segundo maior mercado de skate do planeta; além disso, o Brasil produziu cerca de 50 campeões mundiais nas mais variadas modalidades nos últimos 20 anos. Por aqui, leva-se as competições muito mais a sério do que em outros grandes centros mundiais, como os EUA ou a Europa. Competidores brasileiros são respeitados em todas as competições de todos os circuitos mundiais, exatamente pelo foco que apresentamos na hora do "vamos ver". 

É justo colocar tudo isso em risco só porque não se adota o sistema de julgamento correto?

Já passou da hora da CBSk, de federações estaduais e associações locais adotarem o sistema de julgamento que mais funciona a nível mundial. Como se pode ver, não há nada que possa argumentar a favor de três juízes ou de juízes juntos ou das notas fechadas, só mesmo a chamada "economia porca". Se o organizador não pode cumprir com o mínimo de estrutura pra que seu evento adote o sistema de julgamento adequado, então não pode ter o seu campeonato incluído num circuito brasileiro, regional ou local, e ponto final. 

22.1.16

Conservar é tão importante quanto construir

Algo está muito errado quando há muito mais disposição e esforços pra construção de novas pistas de skate públicas do que pra conservar as já existentes. Em que se pese a falta de respeito com o passado e de memória características da cultura de nosso povo, o fato se torna mais grave quando se dá conta que todas as pistas públicas foram pagas com o dinheiro de nossos impostos. Ou seja, no final das contas, é mais uma prova da falta de cuidado com o erário público, mas esse não é o foco desse texto.

O problema é muito mais grave e de alcance muito mais profundo do que se imagina à primeira vista. Não se pode esperar que o poder público de qualquer esfera (municipal, estadual e federal) venha a se envolver de forma espontânea com a conservação de pistas de skate antigas, uma vez que as prioridades são muito mais urgentes nas áreas da saúde, educação, segurança e mobilidade urbana, isso pra citar apenas aquelas que mais afetam as vidas dos cidadãos comuns. Portanto, é necessária a interferência de organizações de classe (como associações e federações de skate) pra que projetos de conservação de pistas de skate sejam debatidos, aprovados e finalmente saiam do papel.

Da mesma forma, não dá pra esperar que somente a CBSk abrace essa causa. Além de ser uma entidade que funciona com um número muito pequeno de participantes, o foco da confederação é o de aglutinar os vários eventos de skate que acontecem no país em torno de rankings das mais variadas modalidades e categorias. Embora eu ache que a entidade poderia ser mais proativa no que diz respeito à construção e conservação de pistas de skate, é inegável reconhecer que essa tarefa de promover eventos por si só é um trabalho hercúleo, que se torna mais difícil ainda quando apenas meia dúzia de pessoas são responsáveis por todas as ações que a envolvem.

Sejamos justos: como cobrar algo da CBSk se não há nem mesmo uma legislação nacional que regulamente a construção de pistas de skate?!

Se você acha que isso não é necessário, tente por exemplo construir uma quadra de tênis; a mesma deverá ter especificações precisas de medidas, padrões pro tipo de piso utilizado (com espessuras mínima e máxima do revestimento) e até mesmo uma norma sobre a iluminação pra ser referendada pela federação do esporte. Nem pense em construir uma dessas se você não seguir todas as normas, que naturalmente foram formuladas e aprovadas pela entidade de classe nacional. As federações estaduais recolhem taxas e fiscalizam as obras, com exceções feitas às chamadas "quadras multiesportivas", que mesmo assim deverão ter as marcações pros diversos esportes pintadas com tintas de cores diferentes.

Assista ao vídeo abaixo, gravado pelo skatista veterano Marcelo Gervásio da Silva, o "Marcelo Copacabana" ou "Pedal Verde". O cara já viajou até a Patagônia dando impulsos sobre o seu skate, já andou mais de 13.000 kms pela África da mesma forma e está realizando mais uma volta pelo Brasil. Veja o estado da pista de skate pública em Ilhéus (BA), reflita um pouco e conclua se dá pra culpar algo se não a falta de regulamentação pra construção de pistas de skate no país - e, obviamente, a incompetência na execução da obra.





Aí chega-se a um ponto muito preocupante: de quê adiantaria uma legislação específica se não houver vontade política em se fazer a coisa certa?! Pra quê serviria um conjunto de regras a serem seguidas, se alguns dirigentes dessas associações e federações estão mais preocupados em fazer marketing pessoal do que em realizar algo que deixe um legado pras futuras gerações?! Não adianta nada haver os instrumentos sem ter a disposição necessária pra usá-los a favor da comunidade do skate, em respeito ao passado e como legado ao futuro.

Exemplos de envolvimento positivo não faltam por aí:
- Em Minas Gerais, os skatistas de Belo Horizonte se uniram pra reformar as pistas antigas do Anchieta e da Floresta, além de agilizarem a contrução de uma nova, a do Novo Zôo.
- Em SP, houve uma época em que pistas de skate pipocaram ao redor da Capital, a maioria ligadas a centro esportivos e educacionais; atualmente, há uma exigência municipal pra que haja o acompanhamento especializado das obras de construção e reformas de pistas de skate.
- No Rio, as pistas da Lagoa Rodrigo de Freitas e do Aterro do Flamengo foram reformadas com o apoio ($$) da iniciativa privada, ambos os projetos realizados por uma firma especializada em construção e manutenção de pistas de skate.

Em outros lugares, a galera decidiu não esperar pelo poder público: Florianópolis e Porto Alegre talvez sejam duas das capitais com o maior número de pistas particulares do país, uma tendência que está sendo seguida também pela capital paulista e arredores. Acho ótimo que alguns skatistas e empresários tenham condições que os possibilitem construir pistas de skate particulares, sejam elas acessíveis ao público ou não. Pelo menos eles estão fazendo algo que o poder público não tem condições ou interesse (pelo menos quando não há holofotes), que é o de fomentar as respectivas cenas de suas cidades.

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"Conservar é tão importante quanto construir"

A frase acima é atribuída a Le Corbusier, um dos maiores e mais revolucionários arquitetos em todos os tempos. Quando sei que há pistas públicas e históricas apodrecendo de Norte a Sul do país,  ao mesmo tempo em que outras pistas estão apodrecendo a céu aberto, percebo o quanto ainda temos que evoluir. Os exemplos são inúmeros: bowl da Praia de Iracema, em Fortaleza; Parque Marinha do Brasil, em Porto Alegre; Clube dos Doze de Jurerê, em Floripa; pista de Campo Grande, no Rio...  

No entanto, nenhum caso me causa mais indignação do que o da pista da Praça do Skate, em Nova Iguaçu (RJ). Trata-se simplesmente da primeira pista de skate construída na América Latina, que deveria ser conservada e tratada como a verdadeira joia que ela é. Abaixo tem outro vídeo, dessa vez apresentado por Edson Andrade (editor do portal Adrena News) em 2011, antes da última reforma que foi feita na pista. O vídeo é datado, mas não é o pior nessa situação toda...






O pior de tudo é a foto tirada no início desse ano, que gerou uma zoação bem criativa do Beto Bianchi.


Ou seja, dinheiro público e tempo gastos à toa. Sinal de que não houve um acompanhamento realmente especializado, ou então que a obra não atingiu a dimensão que deveria. Uma cagada, enfim.

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Somos cerca de 5 milhões de skatistas no Brasil. Somos o segundo maior cenário e o segundo maior mercado de skate no planeta. Somos o país que é o maior formador de campeões mundiais em todas as modalidades, nada menos que 45 deles desde 1995.  

Temos inúmeras pistas de skate espalhadas pelo país, dos mais variados formatos - públicas e particulares, modernas e ultrapassadas, utilizadas e abandonadas. Temos cada vez mais firmas profissionais especializadas em construção e manutenção de pistas de skate, todas elas comandadas por skatistas que são arquitetos e engenheiros. Temos um potencial enorme de expansão do skate por todo o país, pra que cada vez maius skatistas possam desenvolver as suas habilidades e manter a hegemonia brazuca nos títulos mundiais.

Vamos mesmo deixar todo esse potencial escorrer pelos ralos abaixo?

Precisamos de uma regulamentação para a construção e conservação de pistas de skate em nosso país.



5.1.16

Colunas de 2015 na Tribo Skate

A partir de agora, irei publicar por aqui as minhas colunas que são publicadas mensalmente na revista Tribo Skate. Como aperitivo, seguem abaixo as colunas publicadas durante o ano de 2015. Não estranhe se não tiverem 12 textos assim como são os meses do ano: a publicação passou por nada menos que duas mudanças de editoras no período, o que provocou essa diferença de números. 

A variedade de temas é bem apropriada, já que o próprio skate em si tem inúmeras e diferentes facetas - todas elas excitantes e com suas próprias características. Sei que a visualização online não será das melhores, mas isso não é problema: basta baixar as imagens e visualizá-las do jeito que você quiser no seu dispositivo. Quem tiver interesse em alguma coluna em particular, é só escrever o email nos comentários que eu a enviarei por email com todo o prazer.

Boa leitura e divirta-se!


Edição 231 (janeiro / 2015) - "A modalidade mais brasileira de todas", sobre o downhill slide.

Edição 232 (fevereiro / 2015) - "Sobre veteranos e masters", a respeito da diferença entre skatistas old school e outros que só são mais velhos.

Edição 233 (março / 2015): "Boas maneiras nas ladeiras", o que se deve e o que NÃO se deve fazer num drop de downhill no gás com uma galera.

Edição 234 (maio / 2015): "Faça você mesmo o seu pico - e divirta-se mais!", falando sobre os picos DIY que estão pipocando pelo mundo afora.

Edição 235 (junho / 2015): "A descoberta de um pico", dicas básicas sobre o que fazer quando se descobre um pico novo.

Edição 236 (julho / 2015): "O mais importante mesmo é competir?!", falando sobre a inversão de valores de se colocar a competição antes da diversão.

Edição 237 (outubro / 2015): "Amadorismo por uma questão de classe" e as inúmeras vantagens de se manter amador pelo maior tempo possível.

Edição 238 (novembro / 2015): "Tatu vive!",  lembrando os 10 anos da partida do inesquecível "Tatu".

Edição 239 (dezembro / 2015): "Pais & heróis", um breve resumo dos grandes pais do skate nacional.