29.3.12

Skate para todos


"O pior cego é aquele que não quer ver".

Não é novidade pra ninguém que tem gente que prefere a chamada "prática do avestruz" do que encarar e se adaptar a uma nova realidade. Ficar alienado ao que ocorre ao seu redor pode até dar uma relativa tranquilidade provocada pela inércia em si, mas tem o potencial de se tornar um hábito perigoso se não corrigido a tempo. No mundo dos negócios, então, não há margem pra esse tipo de atitude pois significa colocar em risco o próprio negócio em si.

Num mercado dinâmico como o de skate, essa cegueira é simplesmente mortal.

Cada vez que fico sabendo que uma marca de skate considerada sólida acabou ou se juntou a uma outra, procuro ver o histórico recente pra ver se consigo identificar onde foi cometido o chamado "erro fatal". Acredite, não tem uma só vez que eu me surpreenda. As atitudes erradas parecem se repetir sem parar, como se fossem um moto contínuo ou viessem num manual de como administrar a empresa de maneira errada... é impressionante!

Um camarada das antigas (que também é dono de marca) não está vendo uma perspectiva muito boa pros seus negócios no mercado, isso no momento atual em que o skate tem a maior divulgação e penetração na sociedade em toda a sua história. Pedidos diminuindo, representantes desistindo da marca, patrocinados migrando pra concorrência - a coisa não anda nada boa pros lados da firma desse cara. E não é de hoje, a coisa vem piorando nos últimos 2 anos segundo ele mesmo.

Há uns 3 anos, quando seus negócios estavam começando a estagnar, ele veio com uma ideia meio mirabolante envolvendo pro models; a marca é focada no street, diga-se de passagem. Bem, eu falei pra ele que ele deveria também investir em models de longs e short boards, já que era um tipo de skate acessível a homens e mulheres de várias idades, não somente aos aficcionados pela modalidade. A resposta dele veio carregada de ironia e preconceito;

- Porra Guto, isso é coisa de surfista ou de quem não tem coragem de andar de skate.

Não adiantou eu ter argumentado com fatos óbvios e até estatísticas que comprovaram o crescimento do setor, ele simplesmente não levou em consideração.

No mail recebido hoje, destaco uma frase:

"Eu devia ter escutado a você e aos outros os que me aconselharam mudar de foco".

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Não sou dono da verdade, visionário ou guru de coisa alguma. Como jornalista e profissional do skate, é um prazer e uma obrigação estar mais ou menos antenado com o que ocorre nos cenários local, nacional e mundial. E não é de hoje que os longboards vem dando o sinal de que chegaram pra ficar, lado a lado com as outras modalidades de skate que existem.

Pela primeira vez em sua história, o ato de andar de skate está sendo disponibilizado a homens e mulheres de TODAS as idades, e não somente a adolescentes ou jovens adultos. Nos anos 70 era meio que assim, éramos meninos e meninas (e um ou outro "mais velho") andando de skate por todos os lugares onde tínhamos acesso. Mas naquela época, o skate era visto como "coisa de criança" ou no máximo como "distração de adolescente", e eram raros os adultos que subiam nos carrinhos.

Hoje em dia, esse tipo de visão é tão ultrapassada quanto ridícula - e o mesmo pode ser dito sobre quem ainda enxerga long e shortboards como se não fossem "skate de verdade".

Pra mim, "skate de verdade" não é uma ou duas modalidades, mas sim uma tábua com dois eixos de metal e quatro rodas de uretano. Não importa a modalidade, a idade ou o formato do skate: o que importa é a diversão acima de tudo. Tudo é skate - e todos somos skatistas.

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FOTO: internet.

5.3.12

A primeira pista de skate do mundo


Em dezembro último, a pista de skate de Nova Iguaçu (RJ) comemorou 35 anos. Essa pista é não só a primeira a ser construída no Brasil, como também é a pioneira de toda a América Latina. Pode-se dizer sem susto que tudo o que aconteceu no cenário nacional começou nas transições da Praça Xavier da Silveira - que, nos dias de hoje, é conhecida simplesmente como "Praça do Skate" naquela cidade.

Fiquei curioso em saber qual teria sido a primeira pista de skate construída no mundo em todos os tempos. Imaginei encontrar um combo de snake run, banks e bowl, configuração comum nas pistas norte-americanas construídas nos anos 70. Pensei que, com toda a certeza, essa pista teria sido construída na ensolarada California, a "meca do skate" que é o epicentro da indústria e do cenário mundial de skate.

A surpresa que tive foi colossal: a primeira pista não foi feita na California e não tinha o formato de nada que eu tivesse visto antes. Na verdade, cheguei a ficar de queixo caído com a descrição do primeiro pico feito especialmente pra se andar de skate. Na época, era algo bem moderno, funcional e exatamente o que a molecada precisava - como toda pista de skate teria de ser, aliás.




Veja a tradução do texto de uma nota da revista Life datada de abril de 1966:

"Um ringue de compensados ao ar livre numa área de meio acre em Kelso, Washington, é a primeira trilha de skateboard do país.

Erguida sobre palafitas curtas de comprimento variável, ele forma um trajeto sobre uma superfície de areia que suaviza os erros. Uma volta completa cobre 600 pés (cerca de 180 metros).

A garotada paga 50 centavos por hora diurna e à noite, sob iluminação, 75 cents."


Lembre-se que, naquela época, skates tinham rodas estreitas de metal que eram praticamente incontroláveis. Os que andaram nessa época contam que "era o skate que andava contigo, e não o contrário". Os acidentes foram tantos que o skate chegou a ser proibido nos EUA entre 1967 e 1973, tendo sido liberados após o advento das rodas de uretano.

Desde sempre, o skate esteve à busca dos melhores terrenos pra sua prática. Faz parte da nossa alma de skatista procurar, encontrar e detonar todo e qualquer terreno que vejamos pela frente. Nenhum lugar asfaltado, cimentado, metálico ou revestido de madeira está completamente seguro das tábuas de dois eixos e quatro rodas.

Agora se sabe de onde viemos - mas onde vamos parar, é outra história completamente diferente...


12.2.12

Chega!



Apenas uma refrescada na memória:

BRASILEIROS CAMPEÕES MUNDIAIS DE SKATE:

2011 - PEDRO BARROS (BOWL) / KELVIN HOEFLER (STREET) / SANDRO DIAS (VERT) / LETÍCIA BUFFONI (STREET FEM)
2010 - KELVIN HOEFLER (STREET) / MARCELO BASTOS (VERT) / PEDRO BARROS (BOWL) / LETÍCIA BUFFONI (STREET FEM)
2009 - CARLOS DE ANDRADE (STREET)
2008 - RODOLFO RAMOS (STREET) / BOB BURNQUIST (VERT) / KAREN JONZ (VERT FEM)
2007 - SANDRO DIAS (VERT)
2006 - SANDRO DIAS (VERT) / KAREN JONES (VERT FEM)
2005 - SANDRO DIAS (VERT)
2004 - RODIL DE ARAÚJO JR (STREET) / SANDRO DIAS (VERT)
2003 - SANDRO DIAS (VERT)
2002 - RODIL DE ARAÚJO JR (STREET)
1998 - CARLOS DE ANDRADE (STREET)
1995 - DIGO MENEZES (VERT)

Etapa de circuito mundial no país onde tem MAIS DE 20 campeões mundias TEM que pagar MUITO MAIS DO QUE 20 mil dólares de premiação.

EU IGNORO E BOICOTO O VERT JAM.

2.2.12

1964


Quando vejo ou leio algum depoimento de algum skatista norte-americano de mais de 50 anos, um fato é mencionado como sendo histórico no início dos anos 60: uma matéria da revista"Popular Mechanics" que abordava o skate. Parte da matéria seria sobre um até então pequeno histórico do carrinho, contendo as impressões do repórter, e uma outra parte explicava a "mecânica" por trás do "brinquedo" de então.

A revista era uma das mais populares entre a juventude daquele país na ocasião, já que estudar mecânica era uma das atividades extracurriculares mais buscadas pelos garotos. Em suas matérias, eles traziam análises dos mais variados tipos de máquinas e faziam seus testes com o pessoal especializado em cada área de interesse. No Brasil já teve uma revista no estilo, a "Mecânica Popular", que era muito mais focada em automóveis e sua manutenção, ensinando o funcionamento de motores e explicando como executar manutenções básicas.

O repórter Stuart James primeiro explica a paixão da juventude pelo skate, fazendo a inevitável comparação com o surfe. Depois, pega o depoimento de George Cooley, um cara de Los Angeles que morava em San Francisco e que foi quem apresentou o carrinho ao jornalista. Mais adiante, o próprio Stuart experimenta andar de skate pela primeira vez em sua vida - ele que tinha 38 anos na ocasião -, quando ele pode experimentar aquilo que o skate tinha de melhor.... e de pior também.

A conclusão do jornalista leigo há 48 anos é a mesma que qualquer skatista sabe: andar de skate pode ter seus riscos, mas é divertido como poucas coisas na vida!

Pois bem: finalmente ontem tive acesso a scans da histórica reportagem, cujas imagens reproduzo abaixo. Pra quem tem dificuldades com a língua inglesa, é melhor abrir o site doTradukka e ir traduzindo os trechos. Você verá que, mesmo quase meio século depois, o principal no skate continua sendo a mesma coisa: diversão.

Sinta o nível da ladeira e o skate do cara.. você teria coragem de encarar?



Na época, a posição dos pés era a de "duas horas", mas o jornalista não a adotou...



... e aprendeu da pior maneira o outro lado de andar de skate!


Aqui pode não ser o Skate Curiosidade ou o Skate É Cultura, mas aqui você também pode aprender mais sobre a história do carrinho!

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FOTOS: reprodução da internet.

13.1.12

Quem usa a cabeça, usa capacete.


É incrível como alguns temas conseguem ser recorrentes no meio do skate, mesmo com o passar dos anos e com toda a informação disponível da forma mais variada possível. O uso dos capacetes, por exemplo, parece ser um desses que jamais saem de pauta. Vira e mexe, é preciso que alguém toque no assunto pra lembrar da importância desse equipamento de segurança vital pra vida dos skatistas.

Infelizmente, chegou a minha vez de abordar o tema. Digo "infelizmente" porque alguns incidentes ocorridos nos últimos dias praticamente forçaram a abordagem da questão, por menos que eu quisesse e por mais inútil que possa parecer. Insistir no uso de capacetes em pleno 2012 pode parecer algo do tipo "enxugar gelo", mas eu não me importo; é algo que precisa ser conversado, debatido e definitivamente incluído nas cabeças dos skatistas das mais variadas modalidades.

No apagar das luzes de 2011, um garoto de apenas 15 anos morreu no Rio em decorrência de uma queda numa ladeira. Ele bateu a cabeça no meio-fio e ficou inconsciente, e mesmo com o pronto atendimento médico que lhe foi prestado, nada pôde ser feito pra que essa tragédia pudesse ter sido evitada. A comunidade de skate de ladeira da cidade entrou em luto e mostrou solidariedade à família do jovem, através de depoimentos emocionados nas redes sociais.

Nada disso apagará o sentimento de perda dessa família, pra qual 2012 será marcado pra sempre como o ano do fim do mundo pra eles.

Uma semana depois, quase que o mesmo incidente ocorreu de novo, só que dessa vez em São Paulo. Outro skatista (dessa vez um trintão) sofreu o que chamaram de uma "queda boba" num dos picos mais estilosos e suaves do país, batendo a cabeça no chão e sendo acometido de convulsões. Não fosse o pronto atendimento prestado no local, e a presença de um médico nas proximidades, e talvez outro incidente lamentável tivesse ocorrido em tão pouco tempo.




No passado, alguns outros incidentes marcaram seus protagonistas (e até o próprio cenário) de maneira definitiva:

- No início dos anos 90, o cenário de skate carioca perdeu um dos streeteiros mais atirados e considerados quando o Léo da Ilha caiu após tentar varar um gap num estacionamento de supermercado na Ilha do Governador. Ele era o tipo de cara que andava de skate como se fosse o último dia na Terra e, ao mesmo tempo, era de uma simpatia e alto astral contagiantes. Após a queda, ele passou alguns dias em coma e veio a nos deixar de maneira precoce, deixando o cenário da cidade em luto.

- Já nesse século, o mesmo bairro viu mais um acidente lamentável quando Henrique Perck não segurou um slide e caiu, quebrando o cotovelo e batendo a cabeça no chão. Após muita luta por sua própria vida, ele sobreviveu mas ficou com sequelas físicas e neurológicas irreversíveis. Os planos de se tornar designer gráfico tiveram de ser adiados pra sempre, tudo por causa de uma "maldita pedrinha".

Você já deve ter ouvido falar em outros casos similares, de gente que caiu e se machucou feio por não ter usado capacete. Eu mesmo já rachei um capacete Pro Tec quase novinho numa queda no bowl do Rio Sul, e inutilizei um outro da mesma marca após um capote numa ladeira que me deixou tonto por alguns minutos. A dor de cabeça que me acompanhou por 2 ou 3 dias foi até celebrada, pois eu sabia o que poderia ter acontecido caso não tivesse me protegido de maneira apropriada.

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O caso que mais me impressionou nos últimos tempos aconteceu lá fora. Ernie Saiz é um skatista de 33 anos que levou uma queda durante uma sessão com uns amigos em agosto de 2011, e foi parar no hospital inconsciente. Sinta só o drama que ele passou, através de alguns trechos do relato dele à Silverfish Longboarding:

"Eu caí sobre a minha cabeça, batendo a cintura e o coccix, e fraturei esses ossos e o crânio. Fui levado imediatamente a um hospital, onde tiveram de me ressussitar por duas vezes. Um neurologista foi chamado pra retirar cerca de 50% do meu crânio devido ao inchaço cerebral dentro da caixa craniana. Depois disso, passei três semanas em coma."



"O meu caso é um daqueles milagres que acontecem. Eu era pra estar ou morto ou com graves sequelas neurológicas. No hospital, vi pessoas que sofreram o mesmo tipo de queda nunca mais conseguirem ser as mesmas de novo, ou então serem obrigadas a estar em tratamento por 5 anos".

"Antes do acidente, eu nunca usava um capacete a não ser que fosse obrigado a isso. Eu achava que eu era maneiro demais pra usar um desses... e aprendi da pior maneira. Eu estou recuperando os meus estados físico e mental, e portanto tive o skate tirado de mim. Eu amo andar de skate, e tive isso tirado de mim (mesmo que por algum tempo) só porque eu não estava pensando da maneira correta".



"Minha vida mudou radicalmente depois do acidente; quando voltei a trabalhar, tive de usar um capacete pra proteger a caixa craniana que tinha sido aberta pela cirurgia. Fiz questão de mostrar a todos que eu não estava usando pra ser engraçado, mas sim por necessidade. (...) A partir de então, passei a fazer questão de incentivar crianças e adolescentes a usarem capacetes, e uso a minha história como exemplo do que não deve ser feito".




Acompanhe a história original aqui.

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Agora veja que video impressionante. A produção usou um super slow motion de 500 a 1000 quadros por segundo, mostrando exclusivamente quedas de skate. Veja como inúmeros dos skatistas só não bateram a cabeça por um triz.


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É hora de se tomar uma providência, urgente.

Não se deixe enganar: TODOS os envolvidos no cenário de skate têm alguma parcela de responsabilidade quando um skatista cai e sofre alguma consequência por ter batido a cabeça.

* Os organizadores de eventos são responsáveis quando não exigem o uso do capacete por seus competidores, ou quando permitem que sejam usados de qualquer jeito, ou seja, sem apertar a tira da jugular de maneira correta. Eu particularmente acho um ABSURDO que o uso de capacete não seja obrigatório em todos os eventos promovidos pela CBSk, que deveria ser a primeira a dar o exemplo como entidade organizadora de competições e rankings de alcance nacional. Pior ainda quando algum desses eventos é referendado pela WCS, mostrando que o descaso não é um problema localizado em nosso país.

* A mídia é responsável quando produz e divulga fotos e filmes de skatistas se atirando sem usar capacete, não importa qual modalidade que seja. Já ouvi tantas explicações furadas que nem vale a pena repetí-las por aqui - e nenhuma delas é forte o suficiente pra justificar quando alguém sofre qualquer tipo de consequência danosa. Dizem que é "impossível" porque o mercado não aceita... sem comentários.

* O mercado é responsável quando manda publicar peças de publicidade onde o uso de capacete é desprezado. Já houve uma marca de street (felizmente já extinta) que chegou ao absurdo de incluir uma cena na qual alguns membros de sua equipe urinavam dentro de um capacete, e diziam que "não servia nem como penico"... Patético e lamentável.

* Os skatistas profissionais também são responsáveis. Como ídolos, têm que ter a consciência de seu papel perante seus fãs, que muitas vezes os copiam em tudo, da roupa e tênis que usam até o fato de não usarem capacetes. Isso não deveria ser nenhuma novidade afinal, já que muitos deles passam a profissionais simplesmente por terem tido uma parte boa no vídeo da moda...

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E possível mudar? Sim, claro. É fácil? De forma alguma, e exige comprometimento integral à causa, sem vacilar em nenhum momento. Um exemplo é a Concrete Wave, que não costuma publicar anúncios nos quais os skatistas aparecem andando sem capacete. Nenhum competidor que entre numa prova oficial de speed, slalom ou push race sequer sonha em comparecer se não tiver levado seu capacete, e ponto final. Além disso, o uso é obrigatório em quase todas as pistas de skate públicas que são gerenciadas pelas prefeituras das cidades onde são localizadas.

Portanto, é uma questão de querer - e FAZER, principalmente.

Não interessa o que os outros digam, o que aparece nos vídeos ou na internet. Se você cair do skate e bater a cabeça, pode parar no hospital ou no cemitério. Simples assim.

Não seja idiota: quem usa a cabeça, usa capacete.

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FOTOS: Internet e Dan McCashin, da SilverfishLongboarding.com

5.1.12

A cultura do skate

Publico aqui mais um texto do meu camarada Luiz Schaun, outro skatista de longa data como eu. Ele aborda o tema da "cultura do skate" de maneira bem espontânea e apropriada, como ele sempre o faz quando resolve escrever. Seus textos, publicados em seu perfil do Facebook e noutros lugares aqui e ali, transpiram a sabedoria adquirida em mais de 35 anos sobre o carrinho, e são do tipo que eu gostaria de ter escrito.





"A cultura do skate.



Olá, galera...



Quando me refiro a cultura do skate, foco minha abordagem ao desenvolvimento do skate como um todo, e isso inclui toda a forma de viver de quem é adepto dessa atividade,Skateboard!



Em primeiríssimo lugar, evito chamar o skate de esporte, porque os esporte são limitadores , cheios de restrições e regras, e Skate não é isso. Apesar de viver socialmente inserido e adaptado, regras e normas são palavras que ainda me assustam e incomodam.



Há uns 35 anos passados, quando eu era bem moleque, skate e surf andavam de mãozinhas dadas, e dificilmente se distinguiam visualmente falando quem era do skate e quem era do surf, até porque na maioria das vezes surfistas andavam de skate e skatistas surfavam, era uma grande família dos poucos esportes sobre prancha. Algumas marcas de roupas abasteciam esses dois públicos que na verdade era um só. Ainda hoje, lembrei da loja do falecido Polóca, a Tímpano, que pioneiramente apoiava o skate e oferecia camisetas e shorts Lighting Bolt e Hang Teen para os iniciados.



Mas roupas e coisas assim só eram um reflexo da cultura que permeava essa época onde acreditava-se que o skate era um subproduto do universo do surf. Tipo aquele bla bla bla, que surfistas na Califórnia, num período sem ondas resolveram criar o skate. Pra mim o skate existe desde a pré história..hehehehehe



De qualquer forma nos afastamos do surf, e vejam bem, não tenho nada contra o surf. Digo mais, crescemos, criamos uma identidade forte e subversiva , criamos um mercado próprio, e skatistas por si só, tomaram o controle de revistas especializadas, meio de comunicação dos mais tradicionais e legais. Hoje em dia a internet se encarrega de disseminar ainda mais informação. De cria, passamos a criatura e de criatura a criador e hoje vemos claramente que o surf passou a copiar algumas coisas do skate buscando oxigênio e renovação.



Sou skatista... orgulhoso dessa jornada, orgulhoso de ter organizado campeonatos... de ter participado competindo... outros olhando... e outros mais julgando. Compro produtos com a identidade skateboard porque acredito que assim, conscientemente, vou continuar alimentando o skate que existe dentro de mim e principalmente o que cresce diariamente a vista dos meus olhos.



Pensem nisso. Identidade, Skate de Verdade, Futuro...



Um abraço aos irmãos da rodinha!



Schaun."


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FOTO: Luiz Schaun.


14.12.11

Que vergonha!

Por que os produtos importados de skate custam tão caro no Brasil?



Essa pergunta também poderia ser aplicada a automóveis, artigos eletrônicos, perfumes e toda uma série de produtos considerados "não-essenciais". Não vou entrar em considerações sobre como o skate é fundamental nas nossas vidas, pois é chover no molhado em se tratando de skatistas. O fato é que, pro nosso governo, tudo aquilo que não for considerado fundamental pra sobrevivência digna entra nessa categoria, e o skate (e todos os seus acessórios) entram nessa categoria.




Se você tiver curiosidade em pesquisar nos sites de skate shops dos EUA, verá que os preços praticados aqui são extremamente abusivos. Sabemos que todo produto importado sofre diversos tipos de tarifas, e que essas são mais agressivas em se tratando de produtos daquela categoria "não- essencial" que eu mencionei acima. Mas uma coisa é uma coisa, e outra coisa é outra coisa completamente diferente: não há o que justifique as margens de lucro praticadas pelas distribuidoras em nosso país.




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Não se iluda: eles só estão no mercado pelo motivo acima.



O depoimento abaixo foi prestado por um amigo que trabalhou durante 12 anos no ramo de distribuição de produtos importados de skate, e que portanto entendia como poucos daquilo que estava falando. Acompanhe o relato, mas eu sugiro que você tome um copo d'água bem gelada antes - aliás, melhor ainda: traz logo a garrafa da geladeira. A porrada vai ser grande:





"O esquema funciona da seguinte maneira:

- um determinado produto custa US$10,00 para a distribuidora brasileira;

- a distribuidora brasileira converte esses US$10,00 por um cambio de R$3,50 ou seja, o produto passa a custar R$35,00;

- a mesma distribuidora coloca 100% em cima desse determinado produto para ser vendida ao lojista, ou seja, R$70,00;

- o lojista precisa sobreviver e pagar suas contas e por isso, ele aplica 2.0 sobre o produto, ou seja, R$140,00;

- o consumidor é quem acaba sendo o maior prejudicado dessa história e paga o maior "mico", pois o preço na distribuidora era de US$10,00 que no cambio de hoje, custaria cerca de R$18,00 e no preço final, ele pode pagar o absurdo de R$140,00 por cada US$10,00."




Acredite: cada palavra acima é verdade. Eu mesmo tomei um susto quando perguntei o preço de um produto que, lá fora, custaria entre US$ 30 e 35 - e me pediram R$ 200 na loja. O lojista ainda comentou que o preço era "só pra mim, porque eu vendo mesmo é por R$ 220"...




O cenário acima me foi confirmado pessoalmente pelo dono de uma dessas distribuidoras, que falou que "em linhas gerais, é por aí mesmo". Segundo o mesmo, "o mercado está traumatizado com os planos econômicos do passado" e pratica essa tática "como forma de se defender caso o governo resolva mexer radicalmente na economia e o câmbio dispare". Ou seja, o cara ainda está com a mentalidade no cenário econômico comum em nosso país até o final dos anos 90, e ainda acha graça nisso. Chega a ser ridículo, né não?!




Bem, como dizem por aí, "nada é tão ruim que não possa ser piorado" - e não é diferente nessa questão. Acompanhe a sequência do raciocínio abaixo:





"Isso reflete em varios campos:

- o sacoleiro vê os preços absurdos, vai na gringa, arruma uns contatos, compra pelos mesmos US$10,00 e vende pelo preço q ele quiser, desde q seja mais barato q o distribuidor, gerando ainda, um preço bem alto se compararmos ao preço inicial;

- a internet acaba sendo uma opção cada vez mais massificada para a aquisição de diversos produtos, porém o tempo de entrega é maior doque comprar na loja, e muitas vezes demora até 2 meses para chegar em suas mãos;

- alguns lojistas, que são amigos do distribuidor, acabam conseguindo descontos por compras a vista, e ao invés de aumentar sua lucratividade, eles aplicam os descontos que lhes são concedidos e acabam vendendo bem mais barato que o lojista q compra a prazo.

Infelizmente é essa a realidade do mercado de produtos gringos."






Não tenho outra expressão pra descrever o cenário do que "deprimente".



"Mas espere aí, alguma coisa está errada", você pode pensar. "O mercado de skate brasileiro está nas mãos de skatistas na sua maioria, então como isso é possível de acontecer? Seriam alguns de nós a darem um tiro no pé do mercado?!" Surpresa: não é bem assim... Veja a continuação do relato desse meu camarada:







"Infelizmente, é essa a realidade, e se quiserem saber um pouco mais, o dono da distribuidora é S U R F I S T A, e não esta nem aí pros skatistas. O que ele quer mesmo é ganhar dinheiro com o skate, seja no longboard, ou no street, ou qualquer tipo de skate. O dinheiro que o skatista coloca no mercado não volta para o mesmo mercado de skate, ele só volta um pouquinho.... tipo assim, só para falar que esta investindo... esse dinheiro que antes voltava, agora vai para o BOLSO DO SURFISTA."






Não compactuo com o preconceito contra surfistas de um modo geral, mas essa é a mais pura verdade nesse caso de distribuição. Nesse momento, lembrei-me de um editorial da Skateboarder que dizia o seguinte: "o surfe é sensacional, o que o estraga são os surfistas". Gostaria que meu amigo e a revista estivessem errados, mas os casos acima e os anos pegando onda me levaram a concluir que é bem por aí mesmo.




Mais uma vez você deve estar pensando, "então quer dizer que não há jeito?!" Muita calma nessa hora, e muita hora nessa calma. Veja a conclusão do relato desse amigo meu:





"Mas eu vejo a luz no fim do túnel, pois isso se restringe ao mercado de street.....o downhill não esta nesse barco, ele ainda está em nossas mãos, mas não podemos vacilar porque podemos ser atropelados assim como foi no street. Tem muitos outros fatores que contribuem para isso, mas escreveria um livro aqui... pensem e reflitam sobre isso e vejam se não tenho razão."



Eu assino embaixo.



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E agora, o que fazer? Existem várias alternativas, todas elas baseadas no maior poder que um consumidor possa ter: o seu direito de escolha:



- valorizar o produto nacional, já que somos o 2o maior mercado do planeta e temos também o 2o maior cenário do mundo;


- pesquisar pra ver quais marcas importadas que se importam com o mercado nacional, ao formarem equipes, promoverem demos ou eventos e realizar ações que valorizem o que temos por aqui;


- por consequência, desprezar as marcas que estão em nosso país simplesmente pra arrancar uma fatia do nosso generoso bolo sem investir devidamente de volta.




Sei que a diferença de qualidade entre materiais nacionais e importados ainda é bastante significativa em alguns casos, mas isso já não é algo tão generalizado assim já há algum tempo. Se as tábuas ficam atrás por conta da madeira usada pra sua fabricação - o maple canadense ou chinês é muito mais resistente do que o marfim ou goiabão nacionais -, existem eixos e rodas nacionais bastante eficientes, dependendo da marca. Caso você ache que eu estou exagerando, veja alguns exemplos:


- o hexacampeão mundial de vert Sandro Dias usa equipamentos de proteção nacionais da marca Naras;


- o atual campeão mundial de street, Kelvin Hoefler, tem um pro model e só usa as rodas Moska;


- Douglas Dalua, o brasileiro mais bem colocado no circuito mundial de downhill speed, usa tênis Mad Rats em suas descidas cada vez mais velozes.




Agora é contigo.

14.11.11

À deriva

Já tem um tempo que eu venho evitando escrever esse post, uma vez que diz respeito ao cenário do skate no Rio de Janeiro em particular e envolve alguns amigos & conhecidos. Tenho plena consciência de que alguns deles podem ficar chateados e/ou magoados, e entendo perfeitamente que é um direito que lhes assiste. No entanto, a sucessão de acontecimentos - ou melhor dizendo, de "NÃO-acontecimentos" - praticamente me compeliram a traçar essas linhas, naquilo que pode ser definido como "um trabalho sujo que alguém precisa fazê-lo".


O fato é um só: a organização no skate carioca e fluminense está totalmente à deriva. Pra quem não sabe, esse é um termo náutico que significa "sem rumo, sem destino e sem comando". Do meu ponto de vista, não há maneira mais precisa que possa definir o atual estado das coisas.


As mais conhecidas "entidades" e "associações" estão se valendo da realização de eventos e circuitos promovidos por alguns patrocinadores, e de alguns cenários em particular para realizarem os seus próprios "circuitos oficiais". Ficou enterrado no passado o tempo em que tínhamos circuitos organizados prioritariamente por uma associação, com datas previamente conhecidas desde o início do ano ou do semestre. Da mesma forma, parece que foi em tempos imemoriais o período onde se podia contar com eventos que tivessem hora pra começar e pra terminar, com um mínimo de respeito aos competidores, patrocinadores e ao público presente.


Falta tudo:

1) a elaboração de calendários oficiais de várias modalidades - hoje em dia, só se cuida do street e olhe lá;

2) a intervenção pra execução de obras de reforma e/ou de construção de novos locais pra andar de skate - se os próprios locais não agilizarem, como foi no Rio Sul ou na Praça do Ó, nada feito;

3) a realização de eventos não-competitivos em escolas e/ou comunidades carentes, nos quais são ministradas palestras e clínicas de skate - há esporadicamente uma ou outra iniciativa isolada, mais por mérito de quem realiza do que da "entidade" em si;

4) o incentivo às escolinhas de skate, não só através de palavras na mídia mas principalmente em agilizar locais pra que elas possam acontecer, viabilizar material pra confecção de rampas e obstáculos e auxiliar nos trâmites burocráticos pra que possam ser legalizadas;

5) uma parceria VERDADEIRA entre a entidade e o poder público, utilizando as estruturas desse último pra fomentar o cenário de skate no estado.


E pensar que já tivemos tudo isso nos anos 90, com a "antiga e ultrapassada" A.S.R. (Associação de Skate do Rio)...

- Circuitos?! Tivemos 2 oficiais com apoio da Prefeitura do Rio de Janeiro, e mais 4 anos seguidos de eventos realizados no extinto e saudoso MHS Skate Park.

- Pistas e picos?! Vai anotando aí: bowl do Rio Sul, banks da Lagoa e da Praça do Ó, street park do Estácio, liberação do skate nas Paineiras, pista do Aterro do Flamengo...

- Eventos não-competitivos?! Tivemos o Skate Coke, série de demonstrações / palestras / clínicas nas escolas públicas bancado por ninguém menos que a Coca-Cola.

- Escolinhas?! Havia três: em Campo Grande, no Rio Sul e no Arpoador. Todas elas contavam com skatistas de destaque na época como monitores, que tinham carteira assinada e recebiam salários.

- Parceria?! A então Fundação Rio Esportes fornecia isolamento, palanque, som e segurança pra realização dos eventos da A.S.R.


É, tudo isso ficou "velho e ultrapassado".


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O que eu vejo acontecer nos últimos tempos é muito marketing pessoal sendo gerado em torno do mínimo dos mínimos, e muito poucas iniciativas realmente proveitosas para a comunidade de skatistas em nosso estado. Por exemplo, fico preocupado quando leio que uma mini-escolinha de alcance restrito, com aulas ministradas numa rampa particular, consegue ter seus trabalhos mais bem divulgados do que o excelente trabalho realizado há alguns anos pelo Bruno "Funil" no seu N.E.S. (Núcleo Escola de Skate). E olha que não é um projeto qualquer, e sim uma iniciativa que já teve aprovação dos skatistas e até foi recomendada pela própria CBSk num passado recente.



Eu também me preocupo quando recebo um informativo de uma dessas "entidades", que inclui em seu calendário eventos que não são organizados e/ou realizados por elas. Por "organizados", eu quero dizer a elaboração e execução de um planejamento prévio de todas os estágios referentes a esses eventos, incluindo todas e quaisquer imprevistos que possam acontecer durante o evento. Por "realizados", quero dizer o trabalho envolvendo desde a reserva da área onde será realizado o evento até a desmobilização de todo o material e consequente liberaçào desta mesma área.


Por outro lado, só posso achar muita graça quando vejo que um "churrasco de confraternização" é incluído como "evento oficial" de uma dessas "entidades"...


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Antes que você pense que eu sou "contra as mudanças", prefiro relatar um pequeno histórico das entidades de organização do skate nesse século.


Quando a CBSk surgiu em 1999, foi como se um furacão tivesse tomado conta do cenário de organização do skate nacional. A proposta inicial era de "começar tudo de novo", uma vez que a antiga U.B.S. (União Brasileira de Skate) já não estaria mais "dando conta" do recado e que estaria "com mentalidade e atitudes ultrapassadas". O fato que a U.B.S. organizou circuitos brasileiros entre 1989 e 1998 em todos os anos, mesmo quando o skate estava "morto" no início dos anos 90, foi convenientemente esquecido.

A ordem era: fora com os velhos e toda a força pros novos.


O que vimos?! Em primeiro lugar, interesses conflitantes que beneficiavam um veículo de mídia ligado à primeira diretoria. Em muitos dos primeiros eventos da CBSk, os fotógrafos e jornalistas da TRIBO tiveram de se conformar em assistir e/ou fotografar à distância, uma vez que a área privilegiada de competição era destinada aos profissionais ligados à empresa de um dos membros dessa mesma diretoria. Isso não me foi dito ou repassado por ninguém - eu mesmo fui colocado em lugares distantes da área de competição pra acompanhar eventos de street ou de vert, o que em princípio poderia ter trazido prejuízos à percepção da amplituda das manobras. Se você duvida de mim, é só perguntar a outro profissional de imprensa que tenha passado pelo mesmo perrengue do que eu, e verá que eu não exagero aqui.


Ética profissional?! Acho que isso não foi ensinado na escola de vida desse pessoal. Isso não é nada, comparado ao fato de alguns deles terem sido condenados a devolver uma quantia impressioante de $$ aos cofres públicos do estado de São Paulo, de acordo com o que foi publicado no próprio Diário Oficial daquele estado.


Foi somente com a eleição da segunda diretoria da CBSk que a pilantragem deixou de imperar, e atitudes realmente relevantes foram tomadas no sentido de realmente fomentar a prática do skate no nosso país. Marcelo Ferreira e Ed Scander vem sendo os responsáveis pelo trabalho hercúleo que, se não é perfeito, pelo menos é muito melhor mais amplo do que eu poderia ter imaginado antes. Eles estão de parabéns, mas esse não é o foco aqui.


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Os tais "ventos da mudança" também chegaram ao Rio. Uma federação foi fundada a partir de três associações diferentes; o fato de alguns integrantes fazerem parte dessas mesmas associações nào causou estranheza alguma, mesmo sabendo-se que é impossível estar em 3 lugares ao mesmo tempo. Alguns membros da antiga A.S.R. estavam presentes numa reunião geral que foi realizada num extinto parque público na Barra da Tijuca, onde hoje fica a inacabada "Cidade da Música", eu inclusive.


Todos pareciam muito bem intencionados - porém, NINGUÉM se dignou a responder duas perguntas feita pelo Alexandre Calmon, então presidente da A.S.R., e olha que eram questões simples. "Quem pagou pelo som, pelas tendas e por toda a estrutura?" e "qual o interesse por trás disso tudo?!". Lembro que ele quase foi vaiado por parte do público presente, chegaram a dizer que era "recalque" e não economizaram nos impropérios...

... anos depois, quando dois dos membros da "entidade" se candidataram a cargos eletivos em seus respectivos municípios usando o skate como alavanca política - sem consistência pra tal, diga-se de passagem -, ficou bem claro qual era o interesse.


Não foram eleitos, aliás. Como dizem, a justiça tarda mas não falha. Esse deveria ter sido o sinal definitivo, mas não foi claro o suficiente.


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Há cerca de um ano, fui convidado a fazer parte de um "grande esforço geral" pela união do skate no estado do Rio de Janeiro. Muito embora eu não quisesse me envolver mais com esse tipo de iniciativa, e a despeito d a presença de algumas pessoas envolvidas no mesmo coletivo, deixei-me convencer por haver gente séria e confiável que estava por trás dessa união. Sou favorável à unificação de quaisquer esforços pra que o cenário de skate no estado seja elevado ao nível que merece, o qual era uma realidade no século passado, portanto permiti que me incluíssem como "conselheiro de mídia" ou algo assim nessa nova união.


No entanto, nada foi feito no sentido de agilizar a legalização essa entidade. Há uma desculpa que diz que "esse tipo de coisa é complicado e demora mesmo", uma justificativa que já não convence nem mesmo uma criança de 5 anos nos tempos atuais de informação em tempo real. No meu entender, há uma imensa má vontade pra finalizar esse processo, uma vez que envolve interesses conflitantes com os de uma outra "entidade".


Lamento profundamente que caras dignos e honrados como o já citado Bruno "Funil", bem como Rennê Nunes (editor da PENSE SKATE), também tenham sido iludidos pelo "canto de sereia" dessa tal união. Falando no Rennê, se não fosse a interferência dele e de seu grupo, é capaz de não termos nada X nada em termos de eventos no estado, pelo menos não os que tenham alguma importância. Ele formou uma verdadeira rede de ativistas do skate, gente que se propôs a arregaçar as mangas e superar eventuais diferenças em prol do skate no estado do Rio.


Aceitei fazer parte mesmo sabendo que a mídia deve se manter afastada da organização de eventos o máximo possível. Quando a então tríade da TRIBO aceitou abraçar os eventos da U.B.S. em 1995 - no caso, César Gyrão, Fábio Bolota e Márcio Tanabe -, é porque NINGUÉM teve a coragem de colocar a cara à tapa pra fazer nada pelo cenário. Viajei muitas vezes pra SP de busão pra fazer a locução nesses eventos, alguns em troca de transporte e alimentação, porque sabia que era um momento de plantar pra poder colher posteriormente.

E acredite, mesmo assim, houve quem torcesse e trabalhasse contra, movidos por despeito, inveja, incompetência ou puro recalque mesmo. Quando conseguimos trazer a etapa do mundial da WCS ao Brasil, em 1998, tivemos de ver estampada na capa de uma revistinha concorrente a pergunta "o que é uma etapa de mundial de skate?"... Bem, hoje em dia eu posso responder com toda a tranquilidade: é o evento que trouxe ao país o maior número de competidores estrangeiros de ponta em todos os tempos desde então - e olha que nem era oficial ainda!


Portanto, quanto menos a mídia se envolver, melhor. Não corre o risco de perder a isenção e nem de cometer injustiças. Porém, a gente não se emenda quando vê que NADA acontece, e mais uma vez eu acreditei no "canto da sereia".


Todos nós fomos iludidos. Eu não gosto de ser enganado, portanto esse post é uma espécie de resposta. O público precisa saber que há alguns "lobos em pele de cordeiro" no comando do skate fluminense, gente que pensa que ainda engana aos outros... mas que é capaz de não conseguirem iludir nem eles mesmos.


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Pra concluir, vou usar uma outra analogia náutica. Se o skate fluminense é um barco, então parece que estão remando pra um lado a bombordo e pro lado oposto a boreste. Quando isso acontece, os remadores se cansam e o barco gira sem sair do lugar.


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A quem interessar possa, seguem alguns axiomas a respeito da verdade.


"Pode-se enganar a todos por algum tempo, e a alguns o tempo todo, porém não é possível de se enganar a todos por todo o tempo". - Antigo dítame budista, tornado famoso por Winston Churchill


"Uma mentira vê-se transformada em verdade quando repetida à exaustão." - Goebbels, ministro de Hitler.


"A verdade sempre aparece, e sempre prevalece". Essa é minha mesmo, adaptada de uma fala de Hamlet. Fica de graça pra quem quiser fazer uso dela da maneira que achar apropriada.


17.10.11

Algo de podre



Quando um ex-dirigente de entidade nacional de skate (e skatista) é processado por mau uso de dinheiro público, e sua condenação obrigando-o a devolver mais de R$ 300.000,00 aos cofres públicos é publicada no Diário Oficial de SP...


Quando um suposto "organizador de eventos" apropria-se de uma parte generosa da verba da Copa Independência de Downhill, e ainda chama de "otários" os que decidem cobrá-lo pra que simplesmente cumpra com o prometido...


Quando um evento realizado por uma entidade pirata consegue um aporte de verbas espetacular para a sua realização, destinando menos de 5% do orçamento total do evento pra premiação final de todos os finalistas de skate...


Quando, nesse mesmo evento, alguns skatistas profissionais são praticamente coagidos a participarem por seus patrocinadores, que ficam indóceis diante da perspectiva de terem suas marcas divulgadas de graça nas tevês de todo o país...


Quando essas mesmas marcas oportunistas dificultam ao máximo a sua participação como patrocinadores do circuito brasileiro da CBSk, essa sim a entidade legitimamente reconhecida pelos skatistas como a verdadeira organizadora de eventos de skate no país...


Quando, ainda nesse evento, alguns profissionais de skate aceitam participar nos bastidores (e legitimarem) a farsa em troca de polpudos cachês, deixando claro que estão pouco se lixando tanto pra entidade oficial e legítima quanto pro comprometimento com o cenário...


Quando uma emissora de tevê condiciona o envio de jornalistas pra cobrirem um evento futuro ao pagamento de uma "taxa de deslocamento", que nada mais é do que um cachê disfarçado, além de exigirem hospedagem, alimentação e transporte...


Quando não se consegue que NENHUMA marca dessas que aparece na tevê patrocine uma escolinha, ou que banque a construção ou reforma de pistas e picos de skate...


Quando se tem o cenário mais excitante de downhill slide do planeta, com praticantes amadores que superam e muito o nível de grande parte dos profissionais estrangeiros - e, ainda assim, não se consegue reunir condiçõe$ pra se realizar um circuito da modalidade...


Enfim, quando um cara como o Sandro Testinha precisa vender camisetas pra que seu projeto do Social Skate possa ser colocado em prática...


É PORQUE ALGO ESTÁ MUITO PODRE NO SKATE BRASILEIRO.


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Se esse post tivesse uma trilha sonora, seria ao som de "A Minha Renda", da Plebe Rude. Um dos versos diz assim: "grana vale mais que a minha dignidade". Quem diria, os caras foram proféticos há 25 anos...


13.10.11

O mito e os micos


Tony Hawk veio fazer uma demo no Brasil, e isso é obviamente muito bom. Há décadas que se criava a expectativa de seu retorno ao país, depois que uma indigestão quase o colocou a nocaute numa demo no final dos anos 80. O "Birdman" mostrou que seu estilo e suas manobras ficaram praticamente imutáveis com o passar do tempo, deixando boquiabertos a todos os que o assistiram.



Infelizmente, essa foi a única coisa de positiva no evento.



Esse "festival de esportes radicais"(sic) no qual ele participou foi organizado por uma trupe de parasitas com chancela oficial do governo de SP, curriola essa que se julga no direito de serem os "representantes oficiais" dos esportes radicais.



Quando essa tal de "cber" (minúsculas propositais) foi criada, alguns dos nomes mais expressivos dos esportes de ação manifestaram seu repúdio à iniciativa oportunista e sem propósito. Uma verdadeira constelação de skatistas, surfistas, wakeboarders, kitesurfers e rollers deixaram bem claro que essa suposta "entidade" não tem legitimidade alguma pra representar os praticantes de esportes de ação de forma alguma. Infelizmente, a pressão dos patrocinadores de alguns competidores tops - na sua eterna atração pelos holofotes gratuitos da grande mídia - praticamente forçou a apresentação de alguns dos nomes mais expressivos do vert brazuca atual nessa verdadeira palhaçada.



Está mais do que provado que o skate NÃO PRECISA de nenhum outro esporte de ação para "alavancar a audiência", muito pelo contrário: é só analisar os índices de quando há eventos só com skate com os multi-esportivos pra vermos que é justamente o contrário. É o skate quem serve de trampolim pra rollers, bikers, motociclistas e quem mais estiver incluído no que esse pessoal julga ser "farinha do mesmo saco". Por aí dá pra ver o nível de comprometimento e envolvimento dessa "entidade" com cenário e com os skatistas...



Isso tudo é MUITO lamentável sob todos os aspectos que se possa analisar. É podre saber que diversos skatistas ainda sofrem esse tipo de pressão de anunciantes, sejam eles emergentes no cenário ou nomes consagrados. Não se pode criticar aos profissionais por simplesmente cumprirem aquilo que está estipulado em contratos, mas não há como aliviar esses patrocinadores que só sabem olhar pros seus próprios umbigos.



Já passou da hora desses skatistas (e de todos os outros, na verdade) assumirem uma postura radical sim, mas contra esse tipo de evento que pretende no fundo legitimar essa verdadeira apropriação indébita de organização de eventos de skate. Aceitar participar de uma patuscada dessas só dá forças a essa corja parasita, que NADA fez pra levantar o cenário de skate brazuca e agora só querem lucrar quantos benefícios forem possíveis do 2o esporte urbano mais popular de nosso país. Afinal, são eles que representam os quase 4 milhões de skatistas que habitam essa nossa nação.



Já passou da hora de um boicote geral a esse tipo de evento.



Até quando esperar?



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Em tempo: aparentemente, Hawk não sabia desse imbroglio todo, o que é perfeitamente coerente com sua imagem e suas realizações como skatista e personalidade. O cara que criou uma fundação pra angariar fundos pra construção de pistas de skate em comunidades carentes não combina com alguém faminto por divulgação e $$, já que ele tem ambos de sobra. Se ele der seguimento à conversa iniciada por email, eu posto aqui com todo o prazer.