Já tem um tempo que eu venho evitando escrever esse post, uma vez que diz respeito ao cenário do skate no Rio de Janeiro em particular e envolve alguns amigos & conhecidos. Tenho plena consciência de que alguns deles podem ficar chateados e/ou magoados, e entendo perfeitamente que é um direito que lhes assiste. No entanto, a sucessão de acontecimentos - ou melhor dizendo, de "NÃO-acontecimentos" - praticamente me compeliram a traçar essas linhas, naquilo que pode ser definido como "um trabalho sujo que alguém precisa fazê-lo".
O fato é um só: a organização no skate carioca e fluminense está totalmente à deriva. Pra quem não sabe, esse é um termo náutico que significa "sem rumo, sem destino e sem comando". Do meu ponto de vista, não há maneira mais precisa que possa definir o atual estado das coisas.
As mais conhecidas "entidades" e "associações" estão se valendo da realização de eventos e circuitos promovidos por alguns patrocinadores, e de alguns cenários em particular para realizarem os seus próprios "circuitos oficiais". Ficou enterrado no passado o tempo em que tínhamos circuitos organizados prioritariamente por uma associação, com datas previamente conhecidas desde o início do ano ou do semestre. Da mesma forma, parece que foi em tempos imemoriais o período onde se podia contar com eventos que tivessem hora pra começar e pra terminar, com um mínimo de respeito aos competidores, patrocinadores e ao público presente.
Falta tudo:
1) a elaboração de calendários oficiais de várias modalidades - hoje em dia, só se cuida do street e olhe lá;
2) a intervenção pra execução de obras de reforma e/ou de construção de novos locais pra andar de skate - se os próprios locais não agilizarem, como foi no Rio Sul ou na Praça do Ó, nada feito;
3) a realização de eventos não-competitivos em escolas e/ou comunidades carentes, nos quais são ministradas palestras e clínicas de skate - há esporadicamente uma ou outra iniciativa isolada, mais por mérito de quem realiza do que da "entidade" em si;
4) o incentivo às escolinhas de skate, não só através de palavras na mídia mas principalmente em agilizar locais pra que elas possam acontecer, viabilizar material pra confecção de rampas e obstáculos e auxiliar nos trâmites burocráticos pra que possam ser legalizadas;
5) uma parceria VERDADEIRA entre a entidade e o poder público, utilizando as estruturas desse último pra fomentar o cenário de skate no estado.
E pensar que já tivemos tudo isso nos anos 90, com a "antiga e ultrapassada" A.S.R. (Associação de Skate do Rio)...
- Circuitos?! Tivemos 2 oficiais com apoio da Prefeitura do Rio de Janeiro, e mais 4 anos seguidos de eventos realizados no extinto e saudoso MHS Skate Park.
- Pistas e picos?! Vai anotando aí: bowl do Rio Sul, banks da Lagoa e da Praça do Ó, street park do Estácio, liberação do skate nas Paineiras, pista do Aterro do Flamengo...
- Eventos não-competitivos?! Tivemos o Skate Coke, série de demonstrações / palestras / clínicas nas escolas públicas bancado por ninguém menos que a Coca-Cola.
- Escolinhas?! Havia três: em Campo Grande, no Rio Sul e no Arpoador. Todas elas contavam com skatistas de destaque na época como monitores, que tinham carteira assinada e recebiam salários.
- Parceria?! A então Fundação Rio Esportes fornecia isolamento, palanque, som e segurança pra realização dos eventos da A.S.R.
É, tudo isso ficou "velho e ultrapassado".
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O que eu vejo acontecer nos últimos tempos é muito marketing pessoal sendo gerado em torno do mínimo dos mínimos, e muito poucas iniciativas realmente proveitosas para a comunidade de skatistas em nosso estado. Por exemplo, fico preocupado quando leio que uma mini-escolinha de alcance restrito, com aulas ministradas numa rampa particular, consegue ter seus trabalhos mais bem divulgados do que o excelente trabalho realizado há alguns anos pelo Bruno "Funil" no seu N.E.S. (Núcleo Escola de Skate). E olha que não é um projeto qualquer, e sim uma iniciativa que já teve aprovação dos skatistas e até foi recomendada pela própria CBSk num passado recente.
Eu também me preocupo quando recebo um informativo de uma dessas "entidades", que inclui em seu calendário eventos que não são organizados e/ou realizados por elas. Por "organizados", eu quero dizer a elaboração e execução de um planejamento prévio de todas os estágios referentes a esses eventos, incluindo todas e quaisquer imprevistos que possam acontecer durante o evento. Por "realizados", quero dizer o trabalho envolvendo desde a reserva da área onde será realizado o evento até a desmobilização de todo o material e consequente liberaçào desta mesma área.
Por outro lado, só posso achar muita graça quando vejo que um "churrasco de confraternização" é incluído como "evento oficial" de uma dessas "entidades"...
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Antes que você pense que eu sou "contra as mudanças", prefiro relatar um pequeno histórico das entidades de organização do skate nesse século.
Quando a CBSk surgiu em 1999, foi como se um furacão tivesse tomado conta do cenário de organização do skate nacional. A proposta inicial era de "começar tudo de novo", uma vez que a antiga U.B.S. (União Brasileira de Skate) já não estaria mais "dando conta" do recado e que estaria "com mentalidade e atitudes ultrapassadas". O fato que a U.B.S. organizou circuitos brasileiros entre 1989 e 1998 em todos os anos, mesmo quando o skate estava "morto" no início dos anos 90, foi convenientemente esquecido.
A ordem era: fora com os velhos e toda a força pros novos.
O que vimos?! Em primeiro lugar, interesses conflitantes que beneficiavam um veículo de mídia ligado à primeira diretoria. Em muitos dos primeiros eventos da CBSk, os fotógrafos e jornalistas da TRIBO tiveram de se conformar em assistir e/ou fotografar à distância, uma vez que a área privilegiada de competição era destinada aos profissionais ligados à empresa de um dos membros dessa mesma diretoria. Isso não me foi dito ou repassado por ninguém - eu mesmo fui colocado em lugares distantes da área de competição pra acompanhar eventos de street ou de vert, o que em princípio poderia ter trazido prejuízos à percepção da amplituda das manobras. Se você duvida de mim, é só perguntar a outro profissional de imprensa que tenha passado pelo mesmo perrengue do que eu, e verá que eu não exagero aqui.
Ética profissional?! Acho que isso não foi ensinado na escola de vida desse pessoal. Isso não é nada, comparado ao fato de alguns deles terem sido condenados a devolver uma quantia impressioante de $$ aos cofres públicos do estado de São Paulo, de acordo com o que foi publicado no próprio Diário Oficial daquele estado.
Foi somente com a eleição da segunda diretoria da CBSk que a pilantragem deixou de imperar, e atitudes realmente relevantes foram tomadas no sentido de realmente fomentar a prática do skate no nosso país. Marcelo Ferreira e Ed Scander vem sendo os responsáveis pelo trabalho hercúleo que, se não é perfeito, pelo menos é muito melhor mais amplo do que eu poderia ter imaginado antes. Eles estão de parabéns, mas esse não é o foco aqui.
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Os tais "ventos da mudança" também chegaram ao Rio. Uma federação foi fundada a partir de três associações diferentes; o fato de alguns integrantes fazerem parte dessas mesmas associações nào causou estranheza alguma, mesmo sabendo-se que é impossível estar em 3 lugares ao mesmo tempo. Alguns membros da antiga A.S.R. estavam presentes numa reunião geral que foi realizada num extinto parque público na Barra da Tijuca, onde hoje fica a inacabada "Cidade da Música", eu inclusive.
Todos pareciam muito bem intencionados - porém, NINGUÉM se dignou a responder duas perguntas feita pelo Alexandre Calmon, então presidente da A.S.R., e olha que eram questões simples. "Quem pagou pelo som, pelas tendas e por toda a estrutura?" e "qual o interesse por trás disso tudo?!". Lembro que ele quase foi vaiado por parte do público presente, chegaram a dizer que era "recalque" e não economizaram nos impropérios...
... anos depois, quando dois dos membros da "entidade" se candidataram a cargos eletivos em seus respectivos municípios usando o skate como alavanca política - sem consistência pra tal, diga-se de passagem -, ficou bem claro qual era o interesse.
Não foram eleitos, aliás. Como dizem, a justiça tarda mas não falha. Esse deveria ter sido o sinal definitivo, mas não foi claro o suficiente.
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Há cerca de um ano, fui convidado a fazer parte de um "grande esforço geral" pela união do skate no estado do Rio de Janeiro. Muito embora eu não quisesse me envolver mais com esse tipo de iniciativa, e a despeito d a presença de algumas pessoas envolvidas no mesmo coletivo, deixei-me convencer por haver gente séria e confiável que estava por trás dessa união. Sou favorável à unificação de quaisquer esforços pra que o cenário de skate no estado seja elevado ao nível que merece, o qual era uma realidade no século passado, portanto permiti que me incluíssem como "conselheiro de mídia" ou algo assim nessa nova união.
No entanto, nada foi feito no sentido de agilizar a legalização essa entidade. Há uma desculpa que diz que "esse tipo de coisa é complicado e demora mesmo", uma justificativa que já não convence nem mesmo uma criança de 5 anos nos tempos atuais de informação em tempo real. No meu entender, há uma imensa má vontade pra finalizar esse processo, uma vez que envolve interesses conflitantes com os de uma outra "entidade".
Lamento profundamente que caras dignos e honrados como o já citado Bruno "Funil", bem como Rennê Nunes (editor da PENSE SKATE), também tenham sido iludidos pelo "canto de sereia" dessa tal união. Falando no Rennê, se não fosse a interferência dele e de seu grupo, é capaz de não termos nada X nada em termos de eventos no estado, pelo menos não os que tenham alguma importância. Ele formou uma verdadeira rede de ativistas do skate, gente que se propôs a arregaçar as mangas e superar eventuais diferenças em prol do skate no estado do Rio.
Aceitei fazer parte mesmo sabendo que a mídia deve se manter afastada da organização de eventos o máximo possível. Quando a então tríade da TRIBO aceitou abraçar os eventos da U.B.S. em 1995 - no caso, César Gyrão, Fábio Bolota e Márcio Tanabe -, é porque NINGUÉM teve a coragem de colocar a cara à tapa pra fazer nada pelo cenário. Viajei muitas vezes pra SP de busão pra fazer a locução nesses eventos, alguns em troca de transporte e alimentação, porque sabia que era um momento de plantar pra poder colher posteriormente.
E acredite, mesmo assim, houve quem torcesse e trabalhasse contra, movidos por despeito, inveja, incompetência ou puro recalque mesmo. Quando conseguimos trazer a etapa do mundial da WCS ao Brasil, em 1998, tivemos de ver estampada na capa de uma revistinha concorrente a pergunta "o que é uma etapa de mundial de skate?"... Bem, hoje em dia eu posso responder com toda a tranquilidade: é o evento que trouxe ao país o maior número de competidores estrangeiros de ponta em todos os tempos desde então - e olha que nem era oficial ainda!
Portanto, quanto menos a mídia se envolver, melhor. Não corre o risco de perder a isenção e nem de cometer injustiças. Porém, a gente não se emenda quando vê que NADA acontece, e mais uma vez eu acreditei no "canto da sereia".
Todos nós fomos iludidos. Eu não gosto de ser enganado, portanto esse post é uma espécie de resposta. O público precisa saber que há alguns "lobos em pele de cordeiro" no comando do skate fluminense, gente que pensa que ainda engana aos outros... mas que é capaz de não conseguirem iludir nem eles mesmos.
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Pra concluir, vou usar uma outra analogia náutica. Se o skate fluminense é um barco, então parece que estão remando pra um lado a bombordo e pro lado oposto a boreste. Quando isso acontece, os remadores se cansam e o barco gira sem sair do lugar.
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A quem interessar possa, seguem alguns axiomas a respeito da verdade.
"Pode-se enganar a todos por algum tempo, e a alguns o tempo todo, porém não é possível de se enganar a todos por todo o tempo". - Antigo dítame budista, tornado famoso por Winston Churchill
"Uma mentira vê-se transformada em verdade quando repetida à exaustão." - Goebbels, ministro de Hitler.
"A verdade sempre aparece, e sempre prevalece". Essa é minha mesmo, adaptada de uma fala de Hamlet. Fica de graça pra quem quiser fazer uso dela da maneira que achar apropriada.